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Capítulo 7: A queda de um gigante…

Descobertos e sem qualquer arma para o combate, os jovens avançam de mãos vazias contra os dois soldados. Os quais, portando suas espadas atacam sem piedade, buscando desmembrar os invasores.

Mais confiante em suas capacidades, ou melhor, do anel, Ryan investe contra um deles e esquivando-se da lamina afiada, golpeia-o com toda a força de seu punho.

No entanto, seu golpe parece não surtir efeito na armadura do mesmo, que gargalha ao ver a expressão de dor do rapaz.

_ Qual é? – pergunta olhando para o dedo, sem entender o motivo de o artefato permanecer neutro.

Dollenc pelo contrario, prefere medir forças com o outro e agarrando a espada tenta vira-la contra o proprietário, o qual, aceitando o desafio, aplica todo o vigor dos braços em busca de obter a vitória.

Se aproximando do rapaz que geme ajoelhado ao chão, o subordinado continua a gargalhar e levantando o capacete pergunta com um sorriso irônico.

_ Perdão, mas te fiz quebrar uma das unhas moça? – e ri mais uma vez.

Ryan ao ouvir tais palavras se põe de pé em meio a raiva e com um gancho bem colocado no queixo, nocauteia-o de uma só vez.

Surpreso ao ver o companheiro cair desacordado, o rival abre uma brecha, a qual rapidamente é aproveitada por Dollenc, que lhe puxa a arma das mãos e lhe atinge com o cabo da mesma na cabeça.

_ Alguém deve ter ouvido toda essa barulheira e logo teremos companhia. Vamos. – sugere Ryan ao amigo.

_ Espere um pouco, a médium nos disse para seguir por essa direção. Bem, então iremos por ela. – e retira o capacete do inconsciente individuo.

_ Mas você mesmo me disse que seria loucura ir por ali.

_ Não se estivermos disfarçados. – e com um sorriso lança o protetor ao companheiro.

Entendendo finalmente o plano do rapaz, Ryan começa a retirar as partes da armadura de um deles e da mesma forma, coloca-as em si próprio.

As luvas feitas de metal pesado vieram a calhar no momento, já que poderiam esconder o anel de algum olhar curioso. No entanto, o resto não lhe servia muito bem, já que o antigo proprietário era consideravelmente maior, em todos os sentidos.

Para a sorte de Dollenc, seu oponente tinha exatamente a mesma estatura e porte físico, facilitando assim o perfeito encaixe do disfarce. E apesar do terrível odor exalado pela mesma, esta serviria bem ao seu engenhoso plano.

_ Por que eu tenho de ficar com a maior? – pergunta o rapaz, aproximando-se desajeitado.

_ Não temos tempo para os seus chiliques e além do mais, já estamos trajados. – explica colocando a espada na bainha.

Os indivíduos gemem, dando assim um sinal de que breve retomariam a consciência.

_ E quanto a eles? – pergunta Ryan, apanhando a outra arma do chão.

_ Vamos escondê-los dentre os arbustos. – e aponta para a aglomeração de plantas logo ao lado.

Primeiramente decidem levar o grandalhão, cujo peso superava em muito o do outro. Foram necessários ambos os rapazes e um grande esforço para pô-lo no local indicado. Já que o anel, mais uma vez, não estava disposto a cooperar.

_ Qual o problema dessa coisa? – questiona Dollenc sentindo as costas pesarem.

_ Não faço a mínima ideia, sempre que eu mais preciso dessa bugiganga, ela me deixa na mão – e enxuga com a mão a suada testa.

Conversas à parte, resolvem prosseguir com o plano e deixando o segundo deles nos arbustos, certificam-se de que ambos não estão à mostra.

_ Hey, o que estão fazendo ai? – pergunta alguém  se aproximando.

_ E agora? – sussurra Ryan preocupado.

_ Apenas fique quieto e abaixe o capacete. –  diz ele escondendo a face e virando-se.

_ Eu perguntei, por que não estão vigiando seus postos? –  questiona já desconfiado.

_ Viemos aliviar a vontade, estávamos apertados. – explica ao homem.

_ Os dois? –  e os observa estranhando a cena.

_ Você sabe que quando a vontade vem, não da pra segurar. E conversando sai mais fácil. – responde fazendo algum gestos engraçados.

_ Não me interessa como fazem suas necessidades… Agora voltem aos seus postos e se mantenham focados em nosso objetivo. – fala desconcertado, encerrando assim o assunto.

_ Sim. – concordam ambos, deixando rapidamente o local de cabeças baixas.

O individuo os observa desconfiado, principalmente pelo andar de Ryan, que mais parece um pinguim desengonçado andando sobre o fino gelo. Contudo, algo mais estranho lhe chama à atenção. Um tenebroso pé parece brotar dentre a vegetação e como um fruto podre exala um terrível mau cheiro.

_ O que é aquilo? – pergunta já se aproximando dos arbustos.

Ryan e Dollenc se entre olham, receosos de já terem sido descobertos tão precocemente. Enquanto o homem caminha em direção aos dois soldados desacordados e praticamente sem roupa.

_ Mas o que significa isso! – exclama ao perceber os corpos inertes ao chão.

No entanto, antes que pudesse pensar numa segunda ação, o mesmo se vê preso num golpe de gravata dado por Dollenc, que chegou sorrateiramente por de trás do curioso. Ele se debate por alguns momentos, na esperança de se desvencilhar dos braços do espião, mas por fim perde a consciência.

_ Essa situação está ficando cada vez mais perigosa. – comenta Ryan abrindo o capacete.

_ Calma, vamos seguir com o plano. – diz o rapaz deixando mais um corpo camuflado. – Venha, não temos tempo a perder.

Sem expressar mais sua pessimista opinião, Ryan o segue em direção ao acampamento do exército de Ariggon, localizado sobre uma grande clareira no meio da floresta. Eles se aproximam cautelosos, como se pudessem perder as cabeças com um simples gesto errado.

A luz das inúmeras tochas que rodeiam o local, traz a tona as diversas feições e vozes que antes pareciam ocultas. O barulho dos martelos batendo contra as espadas quase prontas, dão uma ideia de que logo haverá uma batalha.

Uma grande fogueira no centro de toda a multidão, esquenta o local. A qual é alimentada por grandes pedaços de madeira, retirados das árvores próximas. Lançando assim, uma nuvem gigantesca de cinzas.

Dollenc deslumbrado por toda aquela agitação, só consegue sentir o calor vindo do fogo. Seu olfato logo é capturado por um cheiro de comida, que parece estar saindo de uma mesa ao longe.

_ Hey, pra onde está indo Dollenc? – pergunta Ryan ao vê-lo mudar de direção.

_ Comer algo, venha! – e se apressa em saciar sua tremenda fome.

_ Não temos tempo! Vamos embora! – pede ele, porém ao tentar se aproximar esbarra num dos soldados.

_ Não olhe por onde não! – brada ele, com a aparência de já estar embriagado.

_ Desculpa… – diz ele temeroso, ao perceber o tamanho do bêbado.

Aproximando-se da mesa, Dollenc já se apressa em pegar um dos suculentos pernis de búfalo e  encher com vinho um canecão de madeira. Os outros parecem nem notar a fisionomia diferente do rapaz, pois estão mais preocupados em fartar-se.

O soldado encara Ryan como se estivesse afim de brigar, porém o jovem cauteloso se afasta aos poucos e já há uma certa distância, encaminha-se para o banquete.

_ Dollenc… – sussurra ao guloso rapaz.

No entanto, seu chamado é ignorado e perdendo a paciência de vez, lhe tira a caneca.

_ Vamos! – exclama, chamando assim a atenção de todos a mesa.

_ Algum problema cara? – pergunta um dos valentões se levantando.

_ Nenhum… não é Dollenc? – e olha temeroso para o amigo.

_ É verdade, vamos sentar e comer! – responde pegando novamente a caneca.

_ Não, nos precisamos… – mas uma agressiva voz o interrompe.

_ Senta logo e come! Ou vou precisar fazer isso por você! – e bate na mesa, balançando desta forma, toda a estrutura.

Sem dar mais um sussurro sequer, o rapaz obedece assustado e sentando-se os observa acanhado.

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O tempo se passa e o coração de Ryan cada vez mais preocupado com o acordar dos três indivíduos abatidos, pulsa avisando que algo trágico se aproxima. E olhando para o companheiro, percebe que o mesmo parece bêbado e bem interagido com os outros à mesa.

_ Foi ai então que ele me perguntou: Não vai me matar?  Daí eu peguei a espada e lhe dei um sossega leão! – narra ele, encenando o que havia ocorrido.

Todos riem com a história contada pelo rapaz e por estarem muito bêbados, nem percebem que ele acabara de lhes dizer que é um fugitivo. Enquanto Ryan já sente as barras frias da prisão num futuro próximo.

_ Isto foi antes ou depois do cara ali desmaiar? – pergunta um deles se recuperando da crise de risos e indicando Ryan.

_ Foi bem antes. Há! Deixa eu lhes contar sobre uma bruxa gostosa que conhecemos mais cedo.

_ Mais cedo? Como assim? – pergunta um deles, estranhando o dito, já que estiveram acampados desde a manhã ali.

_ Dollenc, eles já estão percebendo que não somos daqui… Quer por favor fechar essa matraca. – suplica em seu ouvido.

_ Eles nos amam. Relaxe e beba… Um brinde a Ariggon! – e levanta a caneca, derramando um pouco de vinho na mesa.

_ A Ariggon! – bradam todos os presentes, exceto o preocupado Ryan.

Não longe dali, alguns soldados cortam troncos e mais troncos de árvores, os quais serão usados para a forja de novas espadas e também para alimentar a grande fogueira. Seus machados afiados dilaceram tudo a frente e sem piedade derrubam a vegetação.

As árvores chacoalham e sentindo um leve tremor em seus pés, os soldados paralisam o desmatamento. Todo esse barulho parece ter despertado a ira da natureza.

_ O que é isso? – pergunta um deles, sentindo o tremor se tornar cada vez mais intenso.

_ Não sei, mas seja o que for. Está vindo em nossa direção. – alerta outro.

_ Somos soldados de Ariggon, seja o que for, colocaremos ao chão. – incentiva a todos, puxando a espada.

Um brado retumbante assusta a todos no local. E como um trovão numa forte tempestade, ecoa pelo céu. Seja o que fosse, estava irado e a cada passo se zangava mais e mais.

Com o tombar de duas árvores, a figura sinistra se mostra aos amedrontados homens. E eles percebendo que trata-se de um gigante, correm em direção ao acampamento.

Um passo dado pelo ser, equivalia há inúmeros de um homem comum. E num desses pôde-se escutar o ruir dos ossos de um soldado sendo esmagado.

_ Gigante! Preparem as espadas! – Gritam eles cruzando o local.

O alerta soa e as espadas rapidamente são empunhadas. Ryan no meio de tanta confusão, procura pelo embriagado amigo, que se perdera no alvoroço.

Alguns tentam feri-lo, porém sua pele grossa é como uma dura parede de concreto, que suporta sem nenhuma dor qualquer golpe efetuado.

Num tapa estrondoso, diversos soldados são lançados ao ar, assim como pedaços do próprio solo. Enquanto sua grande boca libera um colossal grito de ódio, ao ver tanta vegetação perdida em meio as chamas.

Muitos fogem temendo pela própria vida, porém uma pequena e bêbada figura chama à atenção do gigante.

_ Você nem é tão grande assim! Desce aqui, que eu te mostro a fúria de minha espada! – exclama Dollenc, ainda que desengonçado pela bebida.

Ryan finalmente identifica o tolo em meio ao pânico geral e sentindo o fim do amigo próximo, corre para tirá-lo da mira do monstro.

A gigantesca mão se levanta, como se preparasse para matar um irritante pernilongo que lhe atormenta. Enquanto Ryan chegando ao amigo, o empurra para o lado. Contudo, sem tempo de esquivar-se, recebe a força do brutal ataque.

Arremessado à mesa de banquete, o rapaz a parte ao meio e tudo que nela continha agora se esparrama ao chão. Sentindo-se leve, o rapaz pensa estar morto e com os olhos ainda fechados tem um leve flash-back, relembra tudo o que vivera.

Amigos, família… Casdia. São as três coisas que tomam seus pensamentos. E em meio ao devaneio ele abre um sorriso conformado.

Dollenc percebendo o que acabara de causar ao estranho amigo, corre desesperado e com os lábios trêmulos só consegue gritar repetidas vezes o seu nome.

_ Ryan! Ryan! Ryan!

_ Dollenc? – sussurra ele, ouvindo o chamado.

Ao abrir os olhos, vê outra vez o céu noturno. Mas como poderia ser? Acabara de levar um impacto incrivelmente maior do que qualquer acidente de carro. Porém, sentia o chão às suas costas e os pés mexendo normalmente. Estava vivo! Mais do que vivo, se sentia imbatível!

Levantando-se, sente a mão pegar fogo e observando o adversário a sua frente, empunha sua espada. Lançando o capacete ao chão, corre seguro de que voltará com a vitória. Enquanto Dollenc, incrédulo no que acabara de testemunhar, apenas o observa agir.

Percebendo a aproximação de mais um pequeno inimigo, o gigante se adianta em tentar esmagá-lo, investindo assim, com um monstruoso golpe de punho. Entretanto, Ryan conseguira evadir-se do ataque com um salto inexplicável. E agora avança pelo membro do gigante, rumo a sua tenebrosa face.

Enquanto isso, o mesmo, apenas observa a poeira que se faz pela forte colisão. Sem notar que o rapaz, já se encontra sobre seus tortuosos ombros e encaminha-se através de um poderoso salto até a sua cabeça.

Os olhos se emparelham por um instante e apesar da diferença de tamanho, ambos se encaram como iguais.

Agarrando a arma do lado contrário, Ryan disfere na fonte da tremenda criatura uma esplendida pancada. Trazendo o gigante ao chão, causando assim, um colossal tremor.

Espantado com o que acabara de fazer, ele nem percebe que o chão se aproxima e em queda livre apenas aterrissa no mesmo, perdendo a consciência.

Dollenc se aproxima do desacordado, sem acreditar que o próprio derrubara um gigante! A euforia dos soldados é instantânea e os brados de vitória ecoam pelo ar.

_ Atenção! – pede uma voz no meio da multidão.

Os soldados começam a se curvar e num efeito dominó, todos se prostram para chegada de alguém. Exceto por Dollenc, que nada entendera e só está preocupado com o parceiro caído.

Uma imponente figura atravessa pelos diversos guerreiros, seus cabelos negros como a noite e seus olhos verdes como a mais preciosa das esmeraldas, são realçados pela esplendorosa  capa vermelha, que lhe cobre a armadura, dando uma certa ideia de quão grande é sua importância e valor.

_ O ilustríssimo general Darike! – anuncia o subordinado.

Todos aguardam ansiosos, e de certa forma, também em meio ao receio, pois conhecem muito bem seu líder e o que o mesmo é capaz de fazer. Com um olhar frio e calculista, apenas os observa e posteriormente ao tremendo ser que se localiza imóvel a sua frente.

_ Quem fez isso? – pergunta em alto e bom tom, num ar imperativo.

Ao ouvirem à pergunta eles abrem espaço, para que seu superior finalmente tenha em sua visão dois rapazes. Dollenc permanece quieto e apenas o encara com o olhar. Enquanto Ryan, ainda que confuso, desperta para o alívio do amigo.

_ Ryan, tudo bem? – pergunta, ajudando-o a se levantar.

_ Acho que sim. Nossa, você viu? –  e abre um sorriso, ao relembrar da batalha de agora a pouco.

_ Sim, esse anel é formidável –  responde, quase como um sussurro.

Era verdade, não haviam mais duvidas de que aquele objeto circular tinha grandes capacidades e principalmente mistérios. Contudo, o sorriso de Ryan se desfaz ao perceber que o companheiro estava sério e focado em outra direção.

Voltando seu olhar para a mesma reta, percebe que são observados. Em especial por Darike, o qual permanece em silêncio e lentamente caminha ao seu encontro. O que deveria fazer a seguir? Se preparar para um combate? Ou mesmo se prostrar em respeito? Sem se decidir, apenas permanece imóvel.

A cada passo dado por Darike, os seus subordinados se afastam em reverência e finalmente chegando até os rapazes, abre um sorriso suspeito.

_ Então, foram vocês que derrubaram o gigante? –  pergunta, demonstrando estar surpreso.

Dollenc com um olhar discreto, aponta o amigo ao lado e ajoelhando-se tenta manter as aparências.

_ Posso saber seu nome, jovem soldado?

_ Me chamo Ryan, senhor… –  e também se prostra. Porém, antes que terminasse a ação, sente a mão de Darike sobre seu ombro.

_ Levante-se, pois qualquer um que tenha feito algo dessa magnitude, merece ser tratado como um igual. –  e retirando a mão de seu ombro, estende-a para comprimentá-lo.

Alguns cochichos são ouvidos dentre a multidão, mas logo o silêncio volta a habitar no ambiente. E o único som ouvido por alguns instantes, é a grosseira respiração do gigante.

_ Quem dera eu ter mais uma dezena de soldados assim, corajosos! Seguros! Vorazes! – comenta ele, como se estivesse dando um sermão nos demais ali.

_ Por esse motivo fui chama-lo senhor. Tenho certeza de que derrubaria esse e mais cem gigantes num só movimento. –  fala o adulador se aproximando.

_ Não… Você fugiu com medo de perecer! Assim como grande parte destes inúteis! –  brada inconformado.

_ Está enganado meu senhor, eu só… –  mas antes que pudesse prosseguir com suas desculpas, sente seu pescoço sendo enforcado.

Darike está com uma das mãos estendidas e em seu dedo brilha um artefato parecido com o de Ryan. Seria um dos valiosos anéis que os rapazes procuram? Essa pergunta ecoa pela mente de ambos os jovens, que apenas observam à cena.

_ Eu nunca me engano… –  e fechando o punho, parece estar provocando o que o subordinado sente.

No entanto, ninguém estava por perto. Uma força sobrenatural e invisível asfixiava-o e nada podia fazer para se libertar.

_ Misericórdia, grande Darike… –  e expelindo sua ultima suplica, cai morto ao chão.

Continua…

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