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Capítulo 9: A garota do riacho…

_ Respondam-me de uma vez! – brada a confusa desconhecida.

_ Olha, meu nome é Ryan e este aqui é o Dollenc. – responde o jovem tentando acalmá-la.

_ Não posso dizer que é um prazer conhecê-la. – fala Dollenc, com a ironia de sempre.

Ouvindo as palavras grosseiras do rapaz, a desconhecida, ainda que desajeitada, tenta disferir um golpe de espada no mesmo. Contudo, antes que pudesse fazê-lo, Dollenc segura fortemente a lâmina e posteriormente a retira das mãos da agressora.

_ Eu não quero te machucar… Não muito… – sussurra disfarçadamente, sentindo o nariz latejar– Por isso, pare de agir como uma louca. – conclui irritado.

_ Louca? – repete a garota, sentindo o sangue lhe subir.

_ O que ele quis dizer, é que não queremos briga. Nós, não vamos lhe fazer mal algum. – explica Ryan pondo naquelas palavras toda a sinceridade.

_ Não sem um motivo. – complementa Dollenc com um sorriso malicioso.

A jovem não se contém ao ouvir a voz irritante do individuo e aplicando-lhe um pontapé, o faz urrar novamente.

_ Parem, mantenham a calma! – pede, ao ver ambos se entre olharem rancorosos.

_ Foi ela quem começou! – exclama acariciando o joelho.

_ Você mereceu… Mas, o que estão fazendo aqui? – questiona a garota ajeitando os longos cabelos loiros.

_ A melhor pergunta seria… O que você estava fazendo estirada ali? – rebate furioso, apontando o local onde a encontraram desacordada, instantes atrás.

Lançando um olhar repreensivo ao amigo, o qual mais parecia significar “Você quer calar a sua boca?”, Ryan se volta para a encrenqueira e após pensar um pouco, resolve iniciar a conversa pelo básico.

_ Pode me dizer qual é o seu nome? – pergunta calmamente.

_ Meu nome?

_ Não, a sua… – mas pensando melhor, o zangado rapaz, prefere guardar às palavras finais na própria mente.

_ Sim, seu nome. Você tem um, não tem?

_ Claro que tenho, o meu nome é… É… É… – entretanto, estranhamente, havia o esquecido naquele momento. – Eu não me lembro.

_ Essa aí, está pior do que você Ryan. Não se lembra nem do próprio nome… – e fazendo o comentário, cai na gargalhada.

_ Pare de rir! – ordena irritada – Pare de rir ou eu… – mas antes que o atacasse novamente, sente a mão de Ryan lhe impedir.

_ Como veio parar aqui? – e aos poucos libera a jovem.

_ Eu… Não me lembro… – explica pondo a mão sobre a cabeça.

Ao encostar seus dedos num ferimento que se escondia dentre seus sedosos cabelos, a jovem lança um surpreendente grito de dor, o que rapidamente, chama a atenção de Ryan.

_ Posso ver? – pergunta educadamente.

_ Hum… Tudo bem… – permite, apesar de receosa.

_ Você está com um galo imenso aí! – comenta analisando o ferimento.

_ Ela deve ter batido a cabeça nas pedras do riacho. Isso explica a perca de memoria. – deduz Dollenc.

Os três, por alguns instantes, observam a correnteza das águas, as quais, totalmente cristalinas, esbanjavam vida em seu interior. As várias pedras existentes no leito possuíam em suas superfícies, uma espécie de musgo fortemente esverdeado. Libélulas sobrevoavam o local e alguns peixes eram vistos no fundo do riacho, e como em coreografia, saltavam para fora buscando pegar os distraídos insetos.

Após alguns momentos de contemplação, Dollenc, dando um longo suspiro, sacode a cabeça em sinal de reprova.

_ Não deveria nadar aqui. Que isso lhe sirva de lição.

_ Eu não estava nadando! – responde num tom seco.

_ Ah não? Então, estava fazendo o que? – indaga confuso.

_ Já disse que não me lembro! – brada perdendo a paciência.

_ Se não se lembra, então, como pode ter certeza de que não estava nadando? – e abre um sorriso de vitória.

_ Deixem isso pra lá. O importante é que você está a salvo. – conclui Ryan, pondo um fim ao debate.

Intrigado, o rapaz pensou em perguntar de onde a mesma vinha, para que pudessem levá-la de volta ao lar. Porém, percebendo que qualquer pergunta seria inútil naquele momento, resolve se calar e admirar o enigmático anel que a tal usava.

_ Bem, acho melhor eu ir. – e adiantando-se, caminha sem rumo por uma direção qualquer.

_ Pra onde vai? Você mal sabe aonde este caminho leva. – interroga, desviando finalmente o olhar do artefato.

_ Certamente me levará para companhias menos desagradáveis. –  e num ultimo gesto, indica o irônico indivíduo.

_ Vá pela sombra. – e virando-se, Dollenc deixa claro que não está se importando com a decisão.

Ouvindo o derradeiro comentário, a jovem em passos largos, prossegue em sua jornada rumo ao desconhecido e embora estivesse um tanto receosa, adentra a densa mata a sua frente. Ryan, parece preocupado quanto ao futuro da garota e vendo que a mesma está quase sumindo do alcance de seus olhos, lança um pedido em voz alta.

_ Volte! Não é seguro sair sozinha por aí!

De nada adiantara as palavras ditas, pois, a desmemoriada havia desaparecido e já não ouvia qualquer apelo. Agora, ambos estavam sozinhos novamente e Dollenc voltando-se ao amigo, percebe que o mesmo o fita sem qualquer aprovação no olhar.

_ O que é? – indaga, já imaginando a resposta.

_ Poderia ter sido um pouco mais amigável. Ela está confusa, poxa.

_ Confusa? Pareceu-me um tanto lelé.

_ Louca ou não, esqueceu-se de que ela tem um anel? – questiona incrédulo na atitude do companheiro.

_ Pode ser um anel comum, não a vi fazendo nada de extraordinário.

_ Mas pode não ser. Temos de encontrá-la, antes que se meta em apuros. – e explicando a situação, começa a percorrer o mesmo trajeto feito pela jovem.

_ Tudo bem… Mas não me peça para ser gentil! – fala acompanhando o amigo.

Perdida e sem qualquer memória, a garota atravessa a mata fechada, ora tropeçando num fragmento qualquer, ora perdendo um pedaço da veste num galho seco. Seu vestido, apesar de molhado, sujo e agora desfiado, parecia ser feito de um material extremamente caro e com detalhes em costura por toda a parte do busto. Sua pigmentação, era em sua grande maioria turquesa, exceto pelas mangas e gola, que esbanjavam um majestoso linho branco.

_ Nunca em toda a minha vida, encontrei alguém tão mal educado e tão irritante… Ou será que encontrei? – indaga a si própria confusa – Espero nunca mais vê-lo!

O caminho tortuoso revelava aos poucos seus habitantes. A jovem em certo momento chegou a se assustar com o aparecimento repentino de uma cobra. Contudo, esta havia feito seu desjejum instante atrás. Estava inchada, e a cauda do rato silvestre ainda era visível fora de sua boca. O animal apenas a observou e percebendo que não havia ameaça prosseguiu para dentro dos arbustos.

Recuperando-se e tomando coragem, a garota avançou mais um passo. No entanto, seus ouvidos haviam captado algumas vozes. Apressada, decide investigar a origem dos sons e abrindo um espaço entre as folhagens, identifica três indivíduos.

_ E como vamos repartir o saque? – questiona o mais franzino, esfregando as mãos.

_ Repartir? Você não fez nada, a não ser vigiar a retaguarda. – fala um outro, só que mais baixo.

_ Mas o plano foi meu! Diga a ele Morrice! – argumenta o magrelo.

O terceiro integrante mostrava-se pensativo e pouca importância deu às palavras do parceiro. Em sua face, se via uma cicatriz próxima ao queixo e uma crespa barba escondia a maior parte de seu sorriso amarelo.

_ Morrice! Estou falando com você! – bradou o magricelo.

_ Não me incomodem com suas tolas picuinhas! – esbravejou perdendo a paciência e sufocando-o com seu grande punho.

O pescoço fino do companheiro poderia deslizar facilmente para fora das mãos de Morrice, se não fosse sua desproporcional cabeça. Os olhos do sufocado quase saltavam para fora da orbita e um estranho roxeado já surgia em seu semblante.

_ Desculpe-me… Não voltarei… A perturbá-lo… – suplica quase inconsciente.

_ Dessa vez passa. – diz lançando-o ao chão bruscamente.

_ Hey, Morrice? – o baixinho chama a atenção com certo receio.

_ O que foi? – indaga com uma voz rouca e pouco amigável.

_ Hum… Vamos repartir o ouro igualmente?

_ Em três partes, você quis se referir, não é? – questiona o franzino com a mão no pescoço roxo.

_ Tanto faz Zitrand! Isso é mixaria perto do que poderemos conseguir através do meu plano.

_ Plano? Mas… Que tipo de plano? – fala o baixinho Zitrand, mostrando real interesse nas palavras de Morrice.

_ Ouvi rumores está manha de que Ariggon acaba de tomar Alkalia.

_ Todos nós sabemos isso Morrice! – interrompe o magricelo tagarela.

Lançando um olhar sanguinário ao intrometido, Morrice deixa claro que se fosse interrompido novamente, matá-lo-ia sem hesitar. E o franzino percebendo a grave falha que acabara de cometer, dá um leve recuo em meio ao temor.

_ Como eu ia dizendo, o meu plano é… – mas ouvindo um chacoalhar de folhas, volta seu olhar para a mata.

A jovem havia aproximado-se um pouco mais para ouvir claramente o tal plano, e com isso, acabara chamando a atenção para si. Entretanto, ela retornou rapidamente para dentre os arbustos, na esperança de não ter sido notada.

_ O que houve Morrice? Não vai nos contar o seu plano? – questiona Zitrand intrigado.

_ Mais tarde… Vou ir tirar água do joelho. Enquanto faço isso, resolvam essa questão do ouro.

Sem dizer mais nada, o sombrio homem, adentrou outra parte da mata, enquanto os outros dois bandidos prosseguiam a discussão. Os mesmo debatiam num alto tom, ora ameaçando, ora rolando na grama fofa.

A cena, de certa forma, estava interessante. A jovem chegou até mesmo a torcer por Zitrand, que acabara vencendo a disputa. Todavia, algo fizera seu coração disparar, como uma espécie de pressentimento ruim.

Uma sensação latejava no fundo do seu peito e a fazia temer pela própria vida. Mas o que poderia ser? O que estava acontecendo? Mais confusa do que o normal, a garota olhava para várias direções. Até que, voltando-se à mão, notou o artefato que brilhava misticamente.

_ Hã? O que é isso… – indagou a si mesma receosa.

Até aquele momento, o anel, não havia sido notado pela jovem, que admirada com a estranha forma de luz, matutava o que estaria ocorrendo. Porém, antes que pudesse raciocinar melhor, sentiu dois braços robustos envolvendo-a por inteira.

_ Olha o que temos aqui! – exclamou a voz rouca de Morrice.

_ Solte-me! – e aos gritos pedia por ajuda.

Com a jovem presa em seus braços, Morrice aproximou-se dos companheiros, que surpresos pela visita inesperada, logo estavam sorrindo cruelmente.

_  Que moça mais bonita, não acha Frank? – comentou o baixinho Zitrand.

_ Se eu soubesse que teríamos visitas de aparência tão bela, teria tomado um banho. – e numa pigarreada forte, Frank o magrelo, liberou ao chão um liquido viscoso que lhe entupia a garganta.

_ Por que estava bisbilhotando? – questionou Morrice, impondo em sua voz, mais rouquidão do que o normal.

Sem saber que resposta dar à pergunta, a desolada garota, só fazia gritar e espernear nos braços do bandido, o qual, apenas apreciava aquela situação.

_ Hey Morrice, ela está usando um anel! – exclamou Frank com os olhos reluzentes.

Todos os três voltaram-se para o artefato que reluzia de maneira magnifica e logo sentiram a ambição tomar-lhes por completo.

_ Me parece bem valioso! – falou Zitrand ao examinar o anel.

_ Iremos lhe fazer um favor, afinal, não quer se meter em encrencas por um anel bobo, não é? – explicou o franzino se aproximando.

_ Deixem-me! Eu lhes imploro! – suplicou a jovem apavorada.

Frank rapidamente segurou a mão da indefesa moça e com ansiedade puxou o artefato. No entanto, o mesmo não se mexia e apenas continuava a reluzir no dedo de sua usuária, trazendo assim, fúria aos olhos do saqueador.

_ Essa porcaria está grudada, não sai de jeito nenhum! – bradou inconformado.

_ É você quem é fraco, saia da frente magrelo e veja como um verdadeiro homem faz. – ordenou Zitrand empurrando o companheiro.

Zitrand deu uma leve puxada, mas o anel permaneceu no mesmo lugar. Posteriormente aplicou mais força, porém, só conseguiu tirar gritos de dor da jovem. Perdendo a paciência, o baixinho retirou sua faca em total indignação.

_ Vamos cortar o dedo de uma vez! – e levantando a lâmina, já se preparava para ferir a jovem.

_ Por favor! Não!

Entretanto, antes que pudesse cometer tal atrocidade, o nanico sentiu o sangue descer a sua testa e a dor tomar a sua cabeça. Havia levado uma forte pedrada e agora só fazia berrar aflito. Os três, voltando os olhares para a direção da origem do fragmento, perceberam que dois rapazes os olhavam em meio a revolta.

_ Soltem-na ou vão se arrepender! – gritou Dollenc empunhando sua espada.

_ Maldito pirralho! – exclamou Zitrand, ao identificar Ryan que segurava outra pedra.

_ Então vocês conhecem essa intrometida? Pois sofreram junto dela! – ameaçou Frank pondo-se em guarda com uma lâmina em mãos.

_ Acabem com eles! – disse Morrice apertando a prisioneira.

Sem pensar duas vezes, Dollenc rapidamente avançou furioso contra os cruéis homens, enquanto Ryan admirado pela explosão do amigo preocupou-se em libertar a desconhecida. As lagrimas eram evidentes no rosto da garota, que só podia torcer para que tudo acabasse de melhor forma.

Primeiramente, o enfurecido rapaz atacou Frank com toda a força que possuía, porém, o mesmo era extremamente astuto e sabendo que não venceria um confronto direto, apenas esquivou-se rapidamente. Zitrand pelo contrário, era orgulhoso como seu oponente e agarrando a cintura de Dollenc, o derrubou agressivamente ao chão.

Ryan desarmado, só olhava fixamente para Morrice. Não poderia correr o risco de ferir a jovem. E também de aplicar um golpe inútil, sem a força que o anel, de vez em nunca, lhe dava. Enquanto o grandalhão apenas sorria, por estar em vantagem na situação.

_ Vou triturá-lo com minhas próprias mãos! – bradou Zitrand com o rosto ensanguentado.

_ Segure-o pra mim Zitrand, vou dar cabo a vida desse infeliz. – pediu Frank apontando a lâmina.

Num golpe feroz de cabeça, Dollenc atordoou o baixinho zangado e segurando-o pelos ombros, o lançou em seu companheiro magricelo. Os dois caíram doloridos no chão e embora Zitrand fosse de pequena estatura, tinha lá seu peso.

Frank procurava recuperar-se, mas com a força que tinha, não conseguia sequer levantar o nanico parceiro. Quando finalmente conseguiram ficar de pé, Dollenc já havia empunhado novamente sua espada e estava pronto para fatiá-los.

Morrice, percebendo que os paspalhões tinham perdido o combate, retirou de sua veste uma afiada faca de caça e apontou a mesma para o pescoço da jovem. Seus olhos demonstravam total frieza e afirmavam que seu dono faria qualquer atrocidade para vencer.

_ Você aí! Dê a espada a um dos dois! – ordenou Morrice.

“O que eu faço agora?” Pensou Dollenc ao ver a desconhecida em risco eminente de morte. Deveria entregar a espada? Ou talvez tentar um ataque rápido em Morrice? Por alguns instantes, o rapaz apenas observava a aflita prisioneira. Ora ela, ora a Ryan, ora à própria espada.

_ Não me ouviu dizer? Dê a espada nesse instante ou o sangue dessa bela jovem ficara em minha faca! –  ameaçou novamente.

Ryan estava de mãos atadas, não tinha certeza se podia ser mais rápido do que o grandalhão e não estava disposto a arriscar uma vida. Seu coração batia num ritmo assombroso e seu punho apertava cada vez mais forte a pedra que segurava.

Frank estendera sua mão à espera de receber a arma, de forma que Dollenc sem escolha, já levantava o punho para entregá-la de mal grado. A esperança parecia ter sido aniquilada e os saqueadores sorriam vitoriosos. Contudo, a jovem enchendo-se de coragem, aplica um chute nas partes baixas de Morrice, que instantaneamente urra de dor.

Aproveitando-se da situação, Ryan lança o fragmento  na cabeça do agressor, que ajoelha atordoado libertando a desconhecida. A mesma corre aliviada para junto do rapaz, que já se prepara para a revanche de Morrice. Enquanto Dollenc, puxando a espada das mãos do magrelo, lhe acerta o nariz com o cabo. Fazendo esguichar assim, uma cascata de sangue.

Zitrand até tenta derrubar novamente o oponente, mas o engenhoso rapaz se esquiva para a direita, deixando o nanico se esborrachar sozinho ao chão.

_ Desgraçado! – brada Morrice avançando cegamente contra ambos os jovens.

Pondo-se a frente, Ryan deixa claro que o grandalhão não tocara num fio de cabelo sequer da moça. E apertando o punho com firmeza, pensa repetidas vezes a mesma frase. “Me de forças!”

A desconhecida já se encolhia à espera do fim de seus dias. Mas para sua surpresa, o rapaz a sua frente, havia detido as mãos de Morrice.

Espantado com a força de Ryan, ele mal podia piscar seus assustados olhos. Suas mãos estavam sendo bloqueadas e a faca que trazia numa delas não conseguia se aproximar do alvo. De repente, sentiu um forte apertão amassar seus músculos e causar-lhe a pior dor que já havia experimentado.

Deixando o instrumento de caça cair, ele agora se encontra desarmado e vulnerável ao próximo movimento do rapaz, o qual,  sem sombra de dúvidas foi incrível. Um bem colocado chute no estomago o fez voar para trás, e senão bastasse, ainda fora arrastado por cerca de quatro metros com o impacto.

Disferindo uma ultima pancada nas costas de Zitrand, Dollenc anunciava a vitória. Todos os três saqueadores estavam nocauteados e sem qualquer possibilidade de reação.

_ Está machucada? – indaga Ryan num suspiro de alívio.

Ela apenas chacoalha a cabeça em afirmação, mas isto já era o suficiente na opinião de Dollenc, que  se aproximando guarda a espada.

_ Eu agradeço pela ajuda.

_ Não foi nada. Mas, tente não se afastar novamente, ok?

_ Como assim?

_ Você virá conosco, queremos o seu anel. – explica Dollenc num tom seco.

_ Eu não vou a lugar algum! – exclama inconformada.

_ O que ele quis dizer, é que vamos levá-la para casa. – fala Ryan tentando evitar novas discussões.

Apanhando o ouro que se encontrava ao chão, Dollenc parece finalmente abrir um sorriso de contentamento. Afinal, ambos os jovens não tinham nada, a não ser a roupa do próprio corpo.

_ Dollenc! – gritou Ryan assustado.

_ O que foi?– e virando-se, observou que a jovem havia perdido a consciência.

Preocupados, começaram a pensar que poderia ter algo haver com o ferimento que a mesma sofreu no riacho. Tentaram chamá-la, sacudi-la, mas a mesma permanecia numa espécie de transe. Foi aí, que finalmente perceberam o anel que brilhava em seu dedo.

O artefato emanava uma luz constante e parecia provocar a situação da jovem.

Continua…

Capítulo 8: Desmascarados…

O temor cresce abundante no coração dos espectadores, os quais, com seus olhares trêmulos, somente observam o cadáver ao chão. Suas feições indicam nada mais e nada menos, do que o mais puro medo que se possa  imaginar, quando se trata da visualização da própria morte.

Impiedoso, o que já era esperado de seus subordinados, Darike abre um breve e frio sorriso de satisfação. Como se ao tirar aquela vida, estivesse degustando da mais divina das bebidas, que os lábios pudessem ter o prazer de desfrutar.

Abaixando a assassina mão, ele apenas acaricia o intrigante artefato, que certamente, estaria ligado à capacidade sobrenatural que possuía. E por alguns momentos permanece assim, quieto, mostrando-se pensativo e principalmente indeciso.

_ Este, é um alerta a todos vocês. Não existe lugar para os covardes em Ariggon. Apenas os fortes sobrevivem. – fala aos diversos ouvintes.

“Quem era aquele homem tão desprovido de misericórdia? E que capacidades teria adquirido com o tal anel?” Matutava Ryan, observando fixamente ao cruel general.

Seus olhos prosseguiam enigmáticos. “Quem seria sua próxima vitima?” É o que todos questionavam temerosos no inconsciente.

_ Chega de enrolação! Temos uma batalha a nossa frente! – brada, sem um pingo de paciência.

Sem pestanejar, a multidão desfaz-se rapidamente, levando consigo o corpo de um companheiro, restando assim, além dos dois rapazes, apenas o gigante inconsciente.

_ É claro que essas palavras não o incluem, Ryan. Mas… Ainda há uma coisa que me intriga. – comenta ele, pondo a mão sobre o queixo.

_ Se me permite a pergunta… O que general? – indaga o jovem, sentindo o coração pesar.

_ Como alguém tão jovem, conseguiu derrubar um ser dessa magnitude? – e desconfiado analisa o suposto guerreiro.

Ryan não sabia o que responder. Certamente, não poderia lhe dizer que fizera tudo isso, graças à ajuda do anel, que trazia em sua mão direita. Afinal, o que deveria  falar? Nada de convincente lhe vinha ao pensamento.

_ A explicação está no treinamento. Ryan desde muito criança, recebera rigorosas lições de combate. – afirma Dollenc, pondo naquelas palavras, toda a convicção e talento na arte de mentir.

_ Treinado… E qual o nome de seu tutor? – interroga novamente, buscando palavras contraditórias em meio às respostas.

_ Sebastian. – rebate o astuto jovem, sem dar tempo para que o amigo ao menos gagueje.

_ Se possível, gostaria de pessoalmente parabenizá-lo  pelo ótimo ensinamento.

_ Infelizmente… Não há como. Já que ele faleceu há algum tempo. – explica Dollenc, em um tom deveras triste.

_ É uma pena… Bem, neste caso, só posso lhes dar meus pêsames. – diz o general, parecendo estar finalmente convencido.

Ryan demonstra através de seus olhos, um certo receio quanto ao contentamento do general. Mas o que poderia fazer a respeito? Estavam cercados por inúmeros subordinados. E mesmo que o anel resolvesse auxiliá-los, o que sem dúvida seria um milagre, ainda teriam de enfrentar a misteriosa habilidade do objeto de Darike.

_ Peço que não leve em conta esse jeito acanhado de Ryan. Ele sempre foi de poucas palavras. – informa Dollenc, bagunçando os cabelos rebeldes do amigo.

_ Um guerreiro não é medido por suas palavras e sim, por suas ações.

O receoso jovem tinha de admitir que aquele homem, apesar de cruel, sabia usar as palavras de modo convincente.

_ E quanto a ele? – diz o jovem, perdendo finalmente o medo e apontando para a monstruosa figura estirada.

_ Vou deixar que se encarregue dele, afinal, o mérito é todo seu. –  e retira da bainha sua espada.

Entregando-a ao rapaz, Darike deixa claro que acabara de encarregar o herói em dar um fim à criatura. Enquanto Ryan, recebendo tal objeto, nota que o próprio resplandece de forma magnifica, mesmo em meio à noite.

Porém, dando-se conta de que terá de matar um ser, o rapaz simultaneamente estremece. Nunca em sua vida, fizera tal atrocidade e muito menos pretendia fazê-la agora.

_ Algum problema, jovem guerreiro? –  questiona, estranhando a demora.

Dollenc pensa em dizer algo para impedi-lo de prosseguir, mas isso certamente, faria com que o general desconfiasse novamente de ambos.

_ Vamos Ryan! –  encoraja o parceiro, lhe dando um empurrão.

Em alguns passos tímidos o rapaz se aproxima, do que, ou quem, será sua vítima. Levantando a afiada lâmina, respira fundo e tenta afastar de si, a culpa que já lhe toma o peito.

_ Acerte-o no coração. – ordena Darike friamente.

No entanto, antes que pudesse realizar a fatal ação, Ryan se vê interrompido por três figuras que adentram correndo e gritando, sendo que dois deles estavam semi-nus.

_ Espiões! Farsantes! Alertem ao general! –  exclamam respectivamente os três indivíduos.

Percebendo que estão prestes a serem desmascarados, ambos os rapazes empunham as armas rapidamente.

_ Ali estão eles! Farsantes! –  indica o de maior porte, ao ver a armadura mal vestida em Ryan.

Darike permanece imóvel, sem entender o que acontece. E aproveitando-se da distração, Dollenc sem pensar duas vezes, investe com sua arma no tirano.

Instintivamente o homem levanta a mão contra o rapaz, que parando na mesma hora, sente que algo o aprisiona e posteriormente  lança-o ao chão. Por vários metros é arrastado, tendo assim, alguns ferimentos leves, até que, ao alcançar uma certa distância, para.

Os soldados se aproximam do general. E Ryan com a espada ainda em mãos, fita o anel de Darike.

_ Parado! –  ameaça uma voz dentre a multidão, enquanto inúmeros instrumentos de batalha apontam para ambos os rapazes.

_ Não se mexa! Ou então, ele morre! –  diz um dos soldados, aproximando sua lâmina do pescoço de Dollenc.

Não havia nada a se fazer. Um movimento brusco poderia custar a vida de seu amigo. A rendição parecia ser a unica opção satisfatória. E percebendo isso, Ryan deixa a espada cair ao solo, em sinal de derrota.

_ Não tolero espiões! Matem-nos e deem seus corpos a Taruckie! – brada em meio ao ódio.

Obedecendo imediatamente, eles investem pra matar. Contudo, uma sombra toma o lugar, assim como uma respiração estrondosa, que chega a chacoalhar as poucas vegetações rasteiras.

O gigante despertara. E agora mais irado do que nunca. Enquanto Darike, apenas o observa sem esboçar qualquer sentimento, seja de medo ou pânico.

Um grito de fúria deixa seus imensos lábios, que mais parecem os portões de um abismo a se abrirem, formando uma rajada de vento, a qual, rapidamente derruba grande parte dos homens.

_ Levantem! Eu quero esse gigante no chão! E os intrusos mortos! Ou pagarão com suas miseras vidas! –  berra, exaltando-se ao máximo.

Numa bofetada, a criatura esmaga duas das centenas de miniaturas a sua vista. Enquanto Dollenc, se levanta e apressando-se corre em direção ao amigo. A medida que Ryan empunha novamente a espada.

Todavia, Darike não tem a miníma intenção de deixá-los partir e tomando o equipamento de um de seus homens, investe contra o espião. Que ao identificá-lo, esquiva-se a tempo.

Dollenc aproximando-se, tenta ajudar o amigo. No entanto, logo sente que alguém lhe imobiliza e com grande força, o aperta para que não se mexa. Este, era o mesmo que os rapazes haviam tido tanto trabalho para carregar.

_ Quero minha armadura de volta! –  diz o outro semi-nu achegando-se com a lâmina em mãos.

_ E eu vou esmagar aquele nanico que me derrubou! –  comenta uma voz grossa, segurando ainda o cativo.

Adiantando-se, o imobilizado rapaz, usa de suas pernas para disferir um golpe naquele que vinha assassiná-lo e posteriormente tenta cabecear o grandalhão, mas sem sucesso, já que o mesmo o apertara com mais força.

Ryan e Darike cruzam as espadas num único e certeiro ataque. Entretanto, suas forças não são as mesmas, já que o anel, mais uma vez falhara com seu usuário, propiciando a queda do jovem.

O gigante, finalmente localiza o ser que lhe fizera desabar momentos antes. E em total fúria, lança seu punho para esmagar tudo ali.

Vitorioso, o impiedoso homem apronta-se para cravar a espada no jovem que está caído a sua frente, mas voltando-se ao céu, percebe o grande membro que desce brutalmente.

De maneira rápida, o general estende a mão em defesa de sua própria vida. E no mesmo instante, todos ouvem um estrondoso impacto acontecer.

O punho da criatura está parado no ar e Darike mostrando finalmente alguma dificuldade, permanece concentrado em conter aquele que pode ser, o fim de sua existência.

Com os olhos fixos naquela impressionante cena, o grandalhão se distrai de seu objetivo anterior. E aproveitando-se da oportunidade, Dollenc crava seus dentes no asqueroso e peludo braço do oponente, fazendo-o urrar de dor e libertar o astuto refém.

Na mesma hora, o rapaz corre em direção ao amigo e ajudando-o a se levantar, aponta o caminho da fuga.

Ambos correm para a liberdade, enquanto Darike se preocupa em bloquear o colossal ataque.Contudo, notando a ausência de seu adversário. O mesmo repara os dois indivíduos que já se encontram há uma certa distância.

Inconformado, utiliza a mão livre na tentativa de trazê-los de volta ao campo de batalha. E para sua satisfação, o mesmo, conseguira aprisionar um dos fugitivos, em sua estranha habilidade.

_ O que houve Ryan? Por que parou? – questiona ao amigo, ao vê-lo ficando imóvel para trás.

_ Não consigo me mexer! Tem algo me impedindo! – exclama desesperado.

Darike parece estar chegando ao limite de suas sobrenaturais capacidades. O gigante aparenta estar disposto a aplicar toda a força para conseguir atingi-lo. E Ryan, incapacitado, tenta ao máximo prosseguir em sua fuga.

“Não sei como você funciona, mas preciso que me ajude” Suplica mentalmente ao anel. Como em imediata resposta, sente encher-se de uma misteriosa, mas agradável energia. E utilizando da mesma, esforça-se em escapar.

Num único e decisivo movimento, o jovem lança seu corpo para frente. Libertando-se da invisível força exercida pelo artefato do oponente.

Insistente, o enfurecido general, tenta novamente paralisá-lo. Contudo, só consegue remover-lhe    a luva direita, juntamente com sua preciosa espada. Deixando à mostra um objeto circular, o qual, emanava um intenso brilho dourado.

_ Não pode ser… Um dos anéis… – sussurra exausto.

Dollenc puxa o amigo para dentro da floresta, onde logo são perdidos de vista.

As espadas tentam combater o grotesco ser, mas sua fúria e resistência são muito maiores do que os gumes das lâminas, que sem sucesso, aplicam inúmeros cortes nos pés da criatura.

Agora, podendo utilizar-se de suas duas mãos, Darike empurra o punho de volta ao céu, o que consequentemente, provoca o recuo do gigante. Posteriormente, fixa seu olhar e força numa das grandes toras que seriam usadas como lenha. E num esboço final de poder, lança-a contra o coração da criatura.

Um esguicho violento de sangue banha diversas das armaduras e um derradeiro berro ecoa, anunciando a morte do imenso adversário.

Árvores tombam, a poeira sobe e um estrondoso barulho avisa. O gigante tivera sua segunda e ultima queda.

Enfim, Darike consegue respirar aliviado, ouvindo os brados em sua homenagem. Entretanto, sua face não demonstra qualquer satisfação. E tudo o que o mesmo faz, é olhar sua espada próxima a luva de Ryan.

Silencioso, ele caminha em direção aos objetos, apanha a arma e  guarda-a na bainha.Posteriormente, segura a parte da armadura deixada e relembra do brilho da esplendorosa joia.

Insatisfeito por não tê-los impedido, soca o solo, transmitindo assim, sua evidente raiva.

_ Senhor, vamos atrás deles? – pergunta um receoso soldado.

_ Não, temos assuntos mais importantes a tratar. Reúnam-se e sigam-me até Alkalia. – ordena decidido.

Entendendo a decisão, o subordinado sai imediatamente, deixando seu comandante aos seus próprios pensamentos.

Já distante dali, os rapazes ainda correm desesperados. Seus corpos avançam dentre a mata fechada e sem saber ao certo que caminha estão tomando, prosseguem em disparada, buscando afastarem-se do perigo.

_ Acha que ainda estão nos seguindo? – pergunta Ryan, enquanto corre.

_ Não sei… Mas é melhor não arriscarmos… – responde ofegante.

Após muito fugirem, finalmente resolvem descansar. Procuram por um local seguro das vistas do inimigo e achando uma série de arvores ocas, os mesmos, adentram uma delas.

Esta, era grande e volumosa, suas raízes secas estavam a mostra. Certamente, havia tombado há muitos anos, pois sua estrutura estava em parte decomposta. Todavia, poderia servir de abrigo, ao menos para aquela madrugada.

_ Dollenc? – chama Ryan, sem qualquer sinal de sono.

_ Hum… O que é? – responde, sentindo os olhos pesarem.

_ Viu o que aquele general pode fazer?

_ Sim. Mal posso esperar pra que você saia por ai, jogando coisas também. – ironiza com um sorriso exausto.

_ Estou começando a achar que os anéis são diferentes… E você?

_ Não tenho a miníma ideia, mas se forem, vamos dar um jeito de encontrá-los assim mesmo.

Um momento de silencio paira no ar e só se ouvem o cantar dos grilos. Incontestavelmente, Darike tinha um dos anéis e com ele conseguia fazer feitos incríveis. O objeto parecia obedecê-lo de boa vontade, ao contrário de Ryan, que mal sabia qual eram as reais capacidades de seu anel.

_ Agora que eu me lembrei, você estava bêbado. – comenta dando uma risada discreta.

Porém, seu amigo nem sequer lhe respondia, seus olhos estavam fechados e sua mente viajava no mundo dos sonhos.

_ Boa noite… – diz compreendendo o cansaço do companheiro.

Sem demora, o sono lhe toma também e ambos agora desfrutam de seus próprios devaneios.

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Deixando as armaduras de lado, os jovens agora caminham depois de um revigorante descanso. Nunca estiveram tão perto da morte e ao mesmo tempo com maior fervor no coração.

_ Se precisamos daquele anel, então uma certa hora teremos de arrancá-lo de Darike, não é mesmo? – questiona Ryan, já imaginando a morte certa.

_ Sim… Mas vamos nos preocupar com ele mais tarde. Afinal, ainda devem existir outros por ai e certamente, mais fáceis de se conseguir. – conclui Dollenc.

_ Se eles fossem tão fáceis, já teriam passado pela mão de muita gente… – rebate o jovem pessimista.

_ Como você reclama, hein? Se até um cabeçudo como você achou um, então não teremos tantos problemas assim. – contra-ataca em meio a um sorriso irônico.

As palavras ditas pelo amigo, serviram para germinar uma pergunta na mente de Ryan. ” Por que este anel estava em sua cidade e não em Casdia, como todos os outros?” Indagava a si mesmo intrigado.

_ Hey! – diz Dollenc, tentando chamá-lo de volta à realidade – Não se preocupe com Darike, eu mesmo irei retirar-lhe o anel! – e bate no peito rindo.

_ Quero ver o que você vai fazer contra a Telecinesia dele. – e já pensa nas varias maneiras do amigo ser trucidado.

_ Tel… O que? – pergunta, sem entender bulhufas.

_ Telecinesia é a capacidade de mover os objetos sem tocá-los. Tipo a Jean Grey do X-Men.

_ Jean? X-Men? Cara, do que você está falando? – e confuso coça a cabeça.

_ Bem… É coisa de onde eu venho. – e sorri discretamente.

Dando um empurrão em Ryan, o rapaz ri da estranheza do mesmo. Mas seu sorriso logo dá lugar a um expressão de surpresa.

_ O que foi? – pergunta Ryan ao vê-lo naquele estado.

Sem dizer uma palavra, Dollenc aponta a causa logo a frente. A bera dum riacho pouco adiante, há uma garota, por sinal desacordada.

_ O que ela está fazendo aqui? – indaga Ryan surpreso.

Dollenc pelo contrário, aproxima-se para observá-la melhor e vendo que a mesma ainda respira, analisa-a de cima a baixo.

Seus cabelos longos e loiros tornam sua face deveras angelical, seus lábios robustos e vermelhos transmitem a cor intensa do amor. Enquanto suas roupas molhadas, deixam claro que aquele belo ser, havia estado até instantes atrás, na água.

_ Quem é ela?

_ Não faço a miníma ideia. Mas ela é linda! – comenta Dollenc, totalmente fascinado pela beleza da jovem.

_ Parece um anjo… – afirma sem jeito.

De repente seus olhos se abrem, mostrando finalmente o verde intenso que possuem. Estes, parecem confusos e aos poucos retornam à consciência. Enquanto seus lábios, umidificam um ao outro.

_ Ela está acordando! – fala sentindo o coração bater mais forte – Olá, eu me chamo Do… – Mas antes que pudesse terminar, sente seu nariz golpeado.

A jovem havia lhe aplicado um soco. Posteriormente, retirou do surpreso rapaz a espada e com ela ameaçava avançar contra ambos.

_ Calma! Não vamos te machucar! – explica Ryan, tentando acalmar a desconhecida.

_ Quem são vocês? O que querem comigo? – exclama totalmente desconfiada.

_ Só queríamos lhe ajudar! Ai meu nariz! – urra Dollenc, sentindo-o inchar.

_ Dollenc, ela tem um anel! – e aponta para a jovem.

Era verdade, aquele se parecia muito com o de Ryan. “Mas o que estaria fazendo com ela? E o que a mesma poderia fazer usando-o?” Pensavam ambos os rapazes novamente surpresos.

Continua…

Capítulo 7: A queda de um gigante…

Descobertos e sem qualquer arma para o combate, os jovens avançam de mãos vazias contra os dois soldados. Os quais, portando suas espadas atacam sem piedade, buscando desmembrar os invasores.

Mais confiante em suas capacidades, ou melhor, do anel, Ryan investe contra um deles e esquivando-se da lamina afiada, golpeia-o com toda a força de seu punho.

No entanto, seu golpe parece não surtir efeito na armadura do mesmo, que gargalha ao ver a expressão de dor do rapaz.

_ Qual é? – pergunta olhando para o dedo, sem entender o motivo de o artefato permanecer neutro.

Dollenc pelo contrario, prefere medir forças com o outro e agarrando a espada tenta vira-la contra o proprietário, o qual, aceitando o desafio, aplica todo o vigor dos braços em busca de obter a vitória.

Se aproximando do rapaz que geme ajoelhado ao chão, o subordinado continua a gargalhar e levantando o capacete pergunta com um sorriso irônico.

_ Perdão, mas te fiz quebrar uma das unhas moça? – e ri mais uma vez.

Ryan ao ouvir tais palavras se põe de pé em meio a raiva e com um gancho bem colocado no queixo, nocauteia-o de uma só vez.

Surpreso ao ver o companheiro cair desacordado, o rival abre uma brecha, a qual rapidamente é aproveitada por Dollenc, que lhe puxa a arma das mãos e lhe atinge com o cabo da mesma na cabeça.

_ Alguém deve ter ouvido toda essa barulheira e logo teremos companhia. Vamos. – sugere Ryan ao amigo.

_ Espere um pouco, a médium nos disse para seguir por essa direção. Bem, então iremos por ela. – e retira o capacete do inconsciente individuo.

_ Mas você mesmo me disse que seria loucura ir por ali.

_ Não se estivermos disfarçados. – e com um sorriso lança o protetor ao companheiro.

Entendendo finalmente o plano do rapaz, Ryan começa a retirar as partes da armadura de um deles e da mesma forma, coloca-as em si próprio.

As luvas feitas de metal pesado vieram a calhar no momento, já que poderiam esconder o anel de algum olhar curioso. No entanto, o resto não lhe servia muito bem, já que o antigo proprietário era consideravelmente maior, em todos os sentidos.

Para a sorte de Dollenc, seu oponente tinha exatamente a mesma estatura e porte físico, facilitando assim o perfeito encaixe do disfarce. E apesar do terrível odor exalado pela mesma, esta serviria bem ao seu engenhoso plano.

_ Por que eu tenho de ficar com a maior? – pergunta o rapaz, aproximando-se desajeitado.

_ Não temos tempo para os seus chiliques e além do mais, já estamos trajados. – explica colocando a espada na bainha.

Os indivíduos gemem, dando assim um sinal de que breve retomariam a consciência.

_ E quanto a eles? – pergunta Ryan, apanhando a outra arma do chão.

_ Vamos escondê-los dentre os arbustos. – e aponta para a aglomeração de plantas logo ao lado.

Primeiramente decidem levar o grandalhão, cujo peso superava em muito o do outro. Foram necessários ambos os rapazes e um grande esforço para pô-lo no local indicado. Já que o anel, mais uma vez, não estava disposto a cooperar.

_ Qual o problema dessa coisa? – questiona Dollenc sentindo as costas pesarem.

_ Não faço a mínima ideia, sempre que eu mais preciso dessa bugiganga, ela me deixa na mão – e enxuga com a mão a suada testa.

Conversas à parte, resolvem prosseguir com o plano e deixando o segundo deles nos arbustos, certificam-se de que ambos não estão à mostra.

_ Hey, o que estão fazendo ai? – pergunta alguém  se aproximando.

_ E agora? – sussurra Ryan preocupado.

_ Apenas fique quieto e abaixe o capacete. –  diz ele escondendo a face e virando-se.

_ Eu perguntei, por que não estão vigiando seus postos? –  questiona já desconfiado.

_ Viemos aliviar a vontade, estávamos apertados. – explica ao homem.

_ Os dois? –  e os observa estranhando a cena.

_ Você sabe que quando a vontade vem, não da pra segurar. E conversando sai mais fácil. – responde fazendo algum gestos engraçados.

_ Não me interessa como fazem suas necessidades… Agora voltem aos seus postos e se mantenham focados em nosso objetivo. – fala desconcertado, encerrando assim o assunto.

_ Sim. – concordam ambos, deixando rapidamente o local de cabeças baixas.

O individuo os observa desconfiado, principalmente pelo andar de Ryan, que mais parece um pinguim desengonçado andando sobre o fino gelo. Contudo, algo mais estranho lhe chama à atenção. Um tenebroso pé parece brotar dentre a vegetação e como um fruto podre exala um terrível mau cheiro.

_ O que é aquilo? – pergunta já se aproximando dos arbustos.

Ryan e Dollenc se entre olham, receosos de já terem sido descobertos tão precocemente. Enquanto o homem caminha em direção aos dois soldados desacordados e praticamente sem roupa.

_ Mas o que significa isso! – exclama ao perceber os corpos inertes ao chão.

No entanto, antes que pudesse pensar numa segunda ação, o mesmo se vê preso num golpe de gravata dado por Dollenc, que chegou sorrateiramente por de trás do curioso. Ele se debate por alguns momentos, na esperança de se desvencilhar dos braços do espião, mas por fim perde a consciência.

_ Essa situação está ficando cada vez mais perigosa. – comenta Ryan abrindo o capacete.

_ Calma, vamos seguir com o plano. – diz o rapaz deixando mais um corpo camuflado. – Venha, não temos tempo a perder.

Sem expressar mais sua pessimista opinião, Ryan o segue em direção ao acampamento do exército de Ariggon, localizado sobre uma grande clareira no meio da floresta. Eles se aproximam cautelosos, como se pudessem perder as cabeças com um simples gesto errado.

A luz das inúmeras tochas que rodeiam o local, traz a tona as diversas feições e vozes que antes pareciam ocultas. O barulho dos martelos batendo contra as espadas quase prontas, dão uma ideia de que logo haverá uma batalha.

Uma grande fogueira no centro de toda a multidão, esquenta o local. A qual é alimentada por grandes pedaços de madeira, retirados das árvores próximas. Lançando assim, uma nuvem gigantesca de cinzas.

Dollenc deslumbrado por toda aquela agitação, só consegue sentir o calor vindo do fogo. Seu olfato logo é capturado por um cheiro de comida, que parece estar saindo de uma mesa ao longe.

_ Hey, pra onde está indo Dollenc? – pergunta Ryan ao vê-lo mudar de direção.

_ Comer algo, venha! – e se apressa em saciar sua tremenda fome.

_ Não temos tempo! Vamos embora! – pede ele, porém ao tentar se aproximar esbarra num dos soldados.

_ Não olhe por onde não! – brada ele, com a aparência de já estar embriagado.

_ Desculpa… – diz ele temeroso, ao perceber o tamanho do bêbado.

Aproximando-se da mesa, Dollenc já se apressa em pegar um dos suculentos pernis de búfalo e  encher com vinho um canecão de madeira. Os outros parecem nem notar a fisionomia diferente do rapaz, pois estão mais preocupados em fartar-se.

O soldado encara Ryan como se estivesse afim de brigar, porém o jovem cauteloso se afasta aos poucos e já há uma certa distância, encaminha-se para o banquete.

_ Dollenc… – sussurra ao guloso rapaz.

No entanto, seu chamado é ignorado e perdendo a paciência de vez, lhe tira a caneca.

_ Vamos! – exclama, chamando assim a atenção de todos a mesa.

_ Algum problema cara? – pergunta um dos valentões se levantando.

_ Nenhum… não é Dollenc? – e olha temeroso para o amigo.

_ É verdade, vamos sentar e comer! – responde pegando novamente a caneca.

_ Não, nos precisamos… – mas uma agressiva voz o interrompe.

_ Senta logo e come! Ou vou precisar fazer isso por você! – e bate na mesa, balançando desta forma, toda a estrutura.

Sem dar mais um sussurro sequer, o rapaz obedece assustado e sentando-se os observa acanhado.

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O tempo se passa e o coração de Ryan cada vez mais preocupado com o acordar dos três indivíduos abatidos, pulsa avisando que algo trágico se aproxima. E olhando para o companheiro, percebe que o mesmo parece bêbado e bem interagido com os outros à mesa.

_ Foi ai então que ele me perguntou: Não vai me matar?  Daí eu peguei a espada e lhe dei um sossega leão! – narra ele, encenando o que havia ocorrido.

Todos riem com a história contada pelo rapaz e por estarem muito bêbados, nem percebem que ele acabara de lhes dizer que é um fugitivo. Enquanto Ryan já sente as barras frias da prisão num futuro próximo.

_ Isto foi antes ou depois do cara ali desmaiar? – pergunta um deles se recuperando da crise de risos e indicando Ryan.

_ Foi bem antes. Há! Deixa eu lhes contar sobre uma bruxa gostosa que conhecemos mais cedo.

_ Mais cedo? Como assim? – pergunta um deles, estranhando o dito, já que estiveram acampados desde a manhã ali.

_ Dollenc, eles já estão percebendo que não somos daqui… Quer por favor fechar essa matraca. – suplica em seu ouvido.

_ Eles nos amam. Relaxe e beba… Um brinde a Ariggon! – e levanta a caneca, derramando um pouco de vinho na mesa.

_ A Ariggon! – bradam todos os presentes, exceto o preocupado Ryan.

Não longe dali, alguns soldados cortam troncos e mais troncos de árvores, os quais serão usados para a forja de novas espadas e também para alimentar a grande fogueira. Seus machados afiados dilaceram tudo a frente e sem piedade derrubam a vegetação.

As árvores chacoalham e sentindo um leve tremor em seus pés, os soldados paralisam o desmatamento. Todo esse barulho parece ter despertado a ira da natureza.

_ O que é isso? – pergunta um deles, sentindo o tremor se tornar cada vez mais intenso.

_ Não sei, mas seja o que for. Está vindo em nossa direção. – alerta outro.

_ Somos soldados de Ariggon, seja o que for, colocaremos ao chão. – incentiva a todos, puxando a espada.

Um brado retumbante assusta a todos no local. E como um trovão numa forte tempestade, ecoa pelo céu. Seja o que fosse, estava irado e a cada passo se zangava mais e mais.

Com o tombar de duas árvores, a figura sinistra se mostra aos amedrontados homens. E eles percebendo que trata-se de um gigante, correm em direção ao acampamento.

Um passo dado pelo ser, equivalia há inúmeros de um homem comum. E num desses pôde-se escutar o ruir dos ossos de um soldado sendo esmagado.

_ Gigante! Preparem as espadas! – Gritam eles cruzando o local.

O alerta soa e as espadas rapidamente são empunhadas. Ryan no meio de tanta confusão, procura pelo embriagado amigo, que se perdera no alvoroço.

Alguns tentam feri-lo, porém sua pele grossa é como uma dura parede de concreto, que suporta sem nenhuma dor qualquer golpe efetuado.

Num tapa estrondoso, diversos soldados são lançados ao ar, assim como pedaços do próprio solo. Enquanto sua grande boca libera um colossal grito de ódio, ao ver tanta vegetação perdida em meio as chamas.

Muitos fogem temendo pela própria vida, porém uma pequena e bêbada figura chama à atenção do gigante.

_ Você nem é tão grande assim! Desce aqui, que eu te mostro a fúria de minha espada! – exclama Dollenc, ainda que desengonçado pela bebida.

Ryan finalmente identifica o tolo em meio ao pânico geral e sentindo o fim do amigo próximo, corre para tirá-lo da mira do monstro.

A gigantesca mão se levanta, como se preparasse para matar um irritante pernilongo que lhe atormenta. Enquanto Ryan chegando ao amigo, o empurra para o lado. Contudo, sem tempo de esquivar-se, recebe a força do brutal ataque.

Arremessado à mesa de banquete, o rapaz a parte ao meio e tudo que nela continha agora se esparrama ao chão. Sentindo-se leve, o rapaz pensa estar morto e com os olhos ainda fechados tem um leve flash-back, relembra tudo o que vivera.

Amigos, família… Casdia. São as três coisas que tomam seus pensamentos. E em meio ao devaneio ele abre um sorriso conformado.

Dollenc percebendo o que acabara de causar ao estranho amigo, corre desesperado e com os lábios trêmulos só consegue gritar repetidas vezes o seu nome.

_ Ryan! Ryan! Ryan!

_ Dollenc? – sussurra ele, ouvindo o chamado.

Ao abrir os olhos, vê outra vez o céu noturno. Mas como poderia ser? Acabara de levar um impacto incrivelmente maior do que qualquer acidente de carro. Porém, sentia o chão às suas costas e os pés mexendo normalmente. Estava vivo! Mais do que vivo, se sentia imbatível!

Levantando-se, sente a mão pegar fogo e observando o adversário a sua frente, empunha sua espada. Lançando o capacete ao chão, corre seguro de que voltará com a vitória. Enquanto Dollenc, incrédulo no que acabara de testemunhar, apenas o observa agir.

Percebendo a aproximação de mais um pequeno inimigo, o gigante se adianta em tentar esmagá-lo, investindo assim, com um monstruoso golpe de punho. Entretanto, Ryan conseguira evadir-se do ataque com um salto inexplicável. E agora avança pelo membro do gigante, rumo a sua tenebrosa face.

Enquanto isso, o mesmo, apenas observa a poeira que se faz pela forte colisão. Sem notar que o rapaz, já se encontra sobre seus tortuosos ombros e encaminha-se através de um poderoso salto até a sua cabeça.

Os olhos se emparelham por um instante e apesar da diferença de tamanho, ambos se encaram como iguais.

Agarrando a arma do lado contrário, Ryan disfere na fonte da tremenda criatura uma esplendida pancada. Trazendo o gigante ao chão, causando assim, um colossal tremor.

Espantado com o que acabara de fazer, ele nem percebe que o chão se aproxima e em queda livre apenas aterrissa no mesmo, perdendo a consciência.

Dollenc se aproxima do desacordado, sem acreditar que o próprio derrubara um gigante! A euforia dos soldados é instantânea e os brados de vitória ecoam pelo ar.

_ Atenção! – pede uma voz no meio da multidão.

Os soldados começam a se curvar e num efeito dominó, todos se prostram para chegada de alguém. Exceto por Dollenc, que nada entendera e só está preocupado com o parceiro caído.

Uma imponente figura atravessa pelos diversos guerreiros, seus cabelos negros como a noite e seus olhos verdes como a mais preciosa das esmeraldas, são realçados pela esplendorosa  capa vermelha, que lhe cobre a armadura, dando uma certa ideia de quão grande é sua importância e valor.

_ O ilustríssimo general Darike! – anuncia o subordinado.

Todos aguardam ansiosos, e de certa forma, também em meio ao receio, pois conhecem muito bem seu líder e o que o mesmo é capaz de fazer. Com um olhar frio e calculista, apenas os observa e posteriormente ao tremendo ser que se localiza imóvel a sua frente.

_ Quem fez isso? – pergunta em alto e bom tom, num ar imperativo.

Ao ouvirem à pergunta eles abrem espaço, para que seu superior finalmente tenha em sua visão dois rapazes. Dollenc permanece quieto e apenas o encara com o olhar. Enquanto Ryan, ainda que confuso, desperta para o alívio do amigo.

_ Ryan, tudo bem? – pergunta, ajudando-o a se levantar.

_ Acho que sim. Nossa, você viu? –  e abre um sorriso, ao relembrar da batalha de agora a pouco.

_ Sim, esse anel é formidável –  responde, quase como um sussurro.

Era verdade, não haviam mais duvidas de que aquele objeto circular tinha grandes capacidades e principalmente mistérios. Contudo, o sorriso de Ryan se desfaz ao perceber que o companheiro estava sério e focado em outra direção.

Voltando seu olhar para a mesma reta, percebe que são observados. Em especial por Darike, o qual permanece em silêncio e lentamente caminha ao seu encontro. O que deveria fazer a seguir? Se preparar para um combate? Ou mesmo se prostrar em respeito? Sem se decidir, apenas permanece imóvel.

A cada passo dado por Darike, os seus subordinados se afastam em reverência e finalmente chegando até os rapazes, abre um sorriso suspeito.

_ Então, foram vocês que derrubaram o gigante? –  pergunta, demonstrando estar surpreso.

Dollenc com um olhar discreto, aponta o amigo ao lado e ajoelhando-se tenta manter as aparências.

_ Posso saber seu nome, jovem soldado?

_ Me chamo Ryan, senhor… –  e também se prostra. Porém, antes que terminasse a ação, sente a mão de Darike sobre seu ombro.

_ Levante-se, pois qualquer um que tenha feito algo dessa magnitude, merece ser tratado como um igual. –  e retirando a mão de seu ombro, estende-a para comprimentá-lo.

Alguns cochichos são ouvidos dentre a multidão, mas logo o silêncio volta a habitar no ambiente. E o único som ouvido por alguns instantes, é a grosseira respiração do gigante.

_ Quem dera eu ter mais uma dezena de soldados assim, corajosos! Seguros! Vorazes! – comenta ele, como se estivesse dando um sermão nos demais ali.

_ Por esse motivo fui chama-lo senhor. Tenho certeza de que derrubaria esse e mais cem gigantes num só movimento. –  fala o adulador se aproximando.

_ Não… Você fugiu com medo de perecer! Assim como grande parte destes inúteis! –  brada inconformado.

_ Está enganado meu senhor, eu só… –  mas antes que pudesse prosseguir com suas desculpas, sente seu pescoço sendo enforcado.

Darike está com uma das mãos estendidas e em seu dedo brilha um artefato parecido com o de Ryan. Seria um dos valiosos anéis que os rapazes procuram? Essa pergunta ecoa pela mente de ambos os jovens, que apenas observam à cena.

_ Eu nunca me engano… –  e fechando o punho, parece estar provocando o que o subordinado sente.

No entanto, ninguém estava por perto. Uma força sobrenatural e invisível asfixiava-o e nada podia fazer para se libertar.

_ Misericórdia, grande Darike… –  e expelindo sua ultima suplica, cai morto ao chão.

Continua…

Capítulo 6: A médium de Geedeon…

O coração bate acelerado e os pulmões trabalham ao máximo na esperança de obter algum ar que seja. A morte lhe parece próxima e não lhe resta nada o que fazer, senão, aguarda-la em meio ao desespero.

Confuso, Dollenc o observa definhar. Será que seu destino é perder todos aqueles dos quais se aproxima? Seus pais, o velho Sebastian e agora o estranho amigo?

Voltando a raciocinar, deixa seus pensamentos e duvidas sumirem no subconsciente. Afinal, cada segundo de demora é um momento a menos para salvar Ryan.

O veneno voraz lhe percorre o corpo, que em resposta luta incessantemente pela vida e como resultado de tal batalha a dor cresce cada vez mais.

_ Calma, não vou deixá-lo morrer – diz Dollenc o pondo sobre as costas.

Embora Ryan fosse quase de seu tamanho, ele o levava sem problemas. Sua estadia nas minas lhe servirá para construir braços fortes e resistentes, assim como o treinamento que fizera sozinho em busca de se tornar um guerreiro.

Determinado prosseguia pelo caminho, o qual tinha certeza de que o levaria até o vilarejo de Geedeon. Um lugar calmo e pacato onde ficou por alguns meses depois de fugir pela primeira vez.

Talvez pudesse encontrar um ministrador de antídotos, afinal, nesse tempo em que saiu dali muita coisa deveria ter mudado.

Notando que o companheiro está quieto, Dollenc já cogita ter de enterrá-lo também. No entanto, verificando sua respiração constata que este está apenas inconsciente.

A determinação do jovem em ajudar o companheiro, de certa forma lhe dá mais garra para prosseguir até seu objetivo e em pouco tempo já avista as varias casas humildes de Geedeon.

Tudo parecia estar exatamente como no passado, porém aquelas pessoas alegres e hospitaleiras que antes conhecera, agora possuíam em seus olhares somente a tristeza.

Alguns curiosos comentam sua chegada, outros apenas o observam, porém Dollenc sem se intimidar pelos olhares resolve pedir por informação.

_ Vocês tem algum ministrador de antídotos aqui? – e os olha esperançoso.

Eles apenas cochicham entre si, como se desconfiassem da aparição repentina.

_ É o meu amigo, ele foi picado por uma cobra e está passando mal – explica-os colocando Ryan no chão.

Uma mulher dentre a multidão se aproxima e ainda que temerosa, examina o rapaz deitado. Após alguns instantes se levanta e voltando ao local de onde saiu lhe da sua opinião.

_ Não há nada o que fazer, ele morrerá em pouco tempo. – Diz ela ao jovem desesperado.

_ Como assim? Você só deu duas ou três olhadas. Como pode estar tão certa disso?

_ Não há ministrador de antídotos aqui, o mais próximo fica a dois dias de viajem e até lá seu amigo já estará morto. – responde-o decidida.

_ O que… Dois dias… Mas deve haver outro jeito! – reluta Dollenc.

_ Pode levá-lo até Éden. – sugere um homem se aproximando.

_ Éden? Quem é? – questiona-o já esperançoso.

_ Aquela charlatã! Essa tal de Éden só sabe enganar os tolos como você! – implica uma mulher que parece saber do que fala.

_ Talvez ela possa ajudá-lo, ouvi dizer que ela tem dons incríveis! –comenta outra voz na multidão.

_ Desde quando enganar trouxas é um dom? Ela passa de lugar em lugar ludibriando o povo para conseguir dinheiro! – afirma outra pessoa.

Um grande tumulto se forma. Alguns a favor da famosa mulher, outros a apontando como serva do próprio demônio.

Dando-se conta de que a discussão não o levaria a lugar algum. Dollenc se adianta e puxa de lado o homem que lhe aconselhara.

_ Por favor, nos leve até essa tal de Éden… – e coloca o amigo novamente nas costas.

_ Tudo bem, siga-me. – e adentra um beco qualquer.

O homem permanece em silêncio, enquanto guia-o por entre as estreitas passagens.

Um odor pesado toma conta do lugar, contudo, sem dizer nada Dollenc continua seguindo-o.

Instantes depois o velho aponta o que parece ser uma tenda montada às pressas. A qual era feita de madeira e recoberta de panos de diferentes tonalidades de cores.

_ Bem, boa sorte com seu amigo – diz o senhor se despedindo.

_ Obrigado – e já se apressaem levar Ryanao local indicado.

Adentrando ao misterioso ambiente, logo se depara com vários frascos com coisas das quais nunca havia visto, enquanto o cheiro forte de incenso impregna seu nariz.

Ryan volta a passar mal por alguns momentos, mas logo retorna ao seu estado anterior.

_ Tem alguém ai? – pergunta Dollenc pondo o amigo no chão.

O silêncio é quebrado por um barulho, o qual lembra moedas caindo e logo uma mulher deveras atraente aparece em meio à escuridão.

Seus pulsos recobertos de adereços combinam com o lenço cintilante que traz em seu pescoço, assim como seus olhos pretos e penetrantes contornados por uma sombra purpura, tornando-a ainda mais atraente.

_ Desculpe ir entrando desse modo, mas me disseram que a senhora poderia me ajudar. – explica Dollenc sem jeito.

_ Depende… No que necessariamente eu posso ajudá-lo meu… Belo jovem? – pergunta a mulher se aproximando cada vez mais.

_ Errr… Eu preciso que… Que… – porém ao vê-la ao seu lado e acariciando os seus braços não consegue responder.

_ Qual o problema? Está tão… Tenso. – e massageia seus ombros robustos.

Dollenc parecia hipnotizado pela estranha. Tudo com o qual estava preocupado tinha perdido a importância e o que lhe interessava naquele momento era admirar aquele belo ser.

No entanto, ao olhar rapidamente ao chão percebe o amigo que permanece desacordado e lembrando-se do motivo de estarem ali seguras às mãos da carinhosa anfitriã.

_ A ajuda não é pra mim e sim pra ele. – e aponta o rapaz.

_ Certo… Vejamos… – e ainda que meio decepcionada, se encaminha até Ryan.

_ Ele não tem muito tempo, foi… – mas ela o interrompe.

_ Picado por uma cobra, entendo…

_ Como sabe?

_ Eu sei de muita coisa… Dollenc… – e sorri sem perder a sensualidade.

Os boatos parecem ser reais e o jovem ansioso aguarda que a mulher termine de examinar seu amigo.

Suas mãos percorrem o corpo de Ryan e sem mesmo tocá-lo parecem desvendar sua alma.

_ Hum… Que pena… – e se levanta.

_ O que foi?

_ Meu antídoto para a espécie de cobra que picou seu amigo acabou… – e pega um por um os frascos do lugar.

_ Acabou? Mas e agora?

_ Bem… É uma pena mais… Aquele admirável jovem está perto da morte. Deve ter mais um minuto de vida e olhe lá.

_ Disseram-me que você poderia ajudá-lo, deve haver algo que possa fazer.

Com um sorriso malicioso, a mulher analisa Dollenc e por alguns instantes ele consegue até imaginar seus pensamentos sujos.

_ Vou ver o que posso fazer, mas não prometo nada… Lindinho – e pincela o dedo na boca do visitante.

Se abaixando novamente, coloca as mãos sobre o rapaz e fechando os olhos recita algumas palavras estranhas.

Contudo, antes que prosseguisse, é interrompida por um brilho dourado que percorre a mão direita de Ryan e logo se espalha por todo o corpo.

_ O que você fez? – pergunta impressionado.

_ Nada! Eu nem sequer cheguei a tocá-lo. – reponde-o perdendo finalmente a postura sensual.

A estranha fonte de luz que cobre o corpo do rapaz ilumina o local e receosa a mulher se afasta do mesmo. Após alguns instantes o clarão cessa e Ryan finalmente desperta já recuperado.

Ainda que atordoado, se levanta do chão de terra, causando espanto a ambos que o observam.

_ Ryan? Está tudo bem? – pergunta Dollenc.

_ Hã? Acho que sim… – responde-o tirando a terra dos braços.

_ Mas o que está havendo aqui? Deixe-me ver seu ferimento rapaz. – ordena ela estendendo sua mão.

Ryan resolve atender ao pedido da estranha e se aproximando levanta a manga da camiseta. Entretanto, a marca de mordida que antes se alastrava pelo seu braço e o fazia inchar, agora não passava de uma pequena e quase imperceptível cicatriz.

_ Mas o que significa isso. Não pode ser… – sussurra ela espantada.

_ Hey Dollenc, onde estamos? – e observa os vários objetos estranhos ao seu redor.

_ Um vilarejo chamado Geedeon e essa mulher é uma espécie de… – mas não consegue achar um termo que defina a estranheza de suas habilidades.

_ Médium! – corrige-o – Mas, ainda não entendo como esse rapaz está de pé.

Os dois apenas a observam caminhar de um lado para o outro em busca de uma resposta para a recuperação de Ryan.

_ Como pode? A não ser que… – e analisa o rapaz de cima a baixo.

Aproximando-se novamente, ela o examina da cabeça aos pés e notando sua mão enfaixada abre um sorriso de entendimento.

_ Tire isso da mão.

_ Mas por quê? – reluta apreensivo.

_ Eu disse, tire isso de sua mão! – ordena certa de que a resposta está ali.

_ Não enrola Ryan, é só uma queimadura! – diz Dollenc agarrando a mão do amigo.

_ Espera, eu não quero. – e tenta pensar numa desculpa convincente.

Sem se importar com o que o rapaz diz, Dollenc retira a força o pedaço de pano sujo e se surpreende ao descobrir que há um anel ali, ao invés de uma marca feita pelo fogo.

_ O que… Será que é mesmo o que eu estou pensando? – exclama a mulher ao identificar o objeto.

_ É um anel… Ryan, por que mentiu pra mim? – pergunta o amigo sem entender nada do que se passa.

_ Um dos anéis… Achei que nunca chegaria a ver um deles – e sorri deslumbrada.

O silêncio toma todos os que estão ali, Ryan apenas tenta entender o que a estranha sussurrara, Dollenc permanece confuso procurando um motivo para que o amigo lhe esconde-se algo tão comum e a Médium continua imóvel admirando o artefato.

_ Isso explica tudo! Ora, mas eu não sabia que você estava com um deles… – e ri chegando mais perto.

_ Um deles? Não consigo entender do que está falando. – e observa a própria mão.

_ Ora, estou falando do anel que usa em seu dedo.

_ O que esse anel tem de mais? – pergunta Dollenc sério.

_ O que ele tem de mais? É só um dos mais preciosos tesouros que háem toda Casdia. Poracaso não sabiam disso? – questiona-os inconformada.

Ambos permanecem quietos e ela entendendo o desconhecimento dos rapazes, resolve explicar a situação.

_ Não há muito que se saiba sobre eles, mas cada qual dessas relíquias da o poder a quem os possui de fazer o inacreditável.

_ Espera um pouco ai, aquelas coisas estranhas que eu vi você fazendo, eram por causa disso? – pergunta Dollenc ao amigo.

_ Eu não sei… Acho que sim.

_ E como você o conseguiu?

_ Encontrei-o num buraco e tenho quase certeza de que foi ele que me trouxe aqui.

_ Aqui? Como assim jovem? – questiona a mulher.

_ Não sou de Casdia. Moro num lugar diferente chamado Hopewell. Mas não sei como voltar, entende? – e suspira conformado.

_ Hey, você nos disse que era uma… – comenta Dollenc tentando se recordar da estranha palavra.

_ Médium! – completa ela zangando-se.

_ Isso mesmo, não poderia ajudá-lo a descobrir qual é o caminho de casa?

Ainda que estivesse embravecida e perplexa com toda a situação que assistira, concorda em ajudar o perdido forasteiro. E colocando a mão sobre os próprios olhos, entra numa espécie de transe.

Aos poucos a temperatura do ambiente abaixa e vozes vindas do nada ecoam em meio ao local. Estas sussurram palavras estranhas, as quais parecem ser compreendidas pela mulher, que ao abrir os olhos, lhes lança um sorriso de entendimento.

_ A resposta para o caminho de casa está em sua mão, meu jovem. – E aponta o objeto em seu dedo.

_ Como assim, está no próprio anel… Não entendi nada.

_ Busque estes objetos e encontrara o que procura. Foi o que as vozes me disseram a respeito.

_ Essas “tais vozes” não poderiam ser mais claras? – pergunta Dollenc perdendo a paciência.

_ Não insulte o que não conhece rapaz! Eu sou apenas um instrumento que interpreta o que os espíritos têm a dizer. Se não quer dar ouvidos, não há mais nada que eu possa fazer. – e já indica a saída.

_ Espere! Peço desculpas pelo Dollenc. Mas você não poderia tentar entende-los um pouco melhor? – pergunta Ryan em tom de respeito.

_ Certo… – e volta a repetir a estranha ação.

Novamente as vozes surgem em meio ao ar gelado. Estas por sua vez parecem nervosas e chegam até mesmo a gritar. A médium sério apenas escuta o que as mesmas proferem.

_ Elas dizem… Que sua vinda até aqui não é um mero acidente… Dizem para você buscar os anéis e eles te mostrarão a saída.

_ E como encontra-los? 

_ Eles… Não sabem… A energia dos anéis impede que localizem seus paradeiros…

_ O que devo fazer quando acha-los?

_ Só pedem para que os reúna – responde ela aparentando pânico.

As vozes aumentam seu tom cada vez mais e os frascos que antes estavam imóveis, agora chacoalham, como se um terremoto atingisse o local.

Sem se importar com o que acontece ao seu redor, Ryan pensa no que mais deveria perguntar à mulher e tendo uma súbita recordação, decide qual a próxima pergunta.

_ Pergunte-os, qual o paradeiro de Alliel, filho de colonos – porém as vozes bradam enfurecidas.

Com o barulho infernal parecido ao de trovoes, os frascos se quebram e se espalham pelo chão. Uma rajada de vento levanta os tecidos que cobrem a tenda e assustados ambos os jovens se abaixam.

Voltando a si, ela respira aliviada, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo.

_ O que houve? – pergunta Dollenc se levantando.

_ Os espíritos se enfureceram com tantas perguntas. – explica-os ainda tremula.

_ Mas e quanto a minha pergunta final? – questiona Ryan segurando-a para que não caia.

_ Desculpe… Mas só pude ouvir uma palavra… Escolha. Faz algum sentido?

_ Escolha? Não, e pra você Dollenc?

_ Não faço a mínima ideia do que possa significar. Não pode pedir para que repitam a ultima parte?

_ Eles não são brinquedos! – e lhe aplica um cascudo. – Já abusei demais do conhecimento deles por hoje.

Desvencilhando-se das mãos de Ryan, se encaminha para dentro da escuridão.

_ Mas ainda tenho muitas perguntas – reluta ao vê-la indo.

_ Procure pelos anéis e obterá as respostas que anseia.  Pelo que pude ouvir você terá um futuro grandioso rapaz, alias, os dois terão. – e volta a sorrir sensualmente para Dollenc.

_ Pode nos dar ao menos uma direção a seguir? – pede o corado rapaz.

 _ Sigam em direção ao sol, ele iluminara os seus caminhos. – e sem responder a mais nada, a misteriosa mulher desaparece em meio às sombras.

Deixando a tenda, Ryan e Dollenc caminham em direção à estrela do dia. Sem saberem ao certo para onde tal caminho os levara.

_ Escolha… – sussurra o jovem a si próprio.

_ Hã? O que disse? – pergunta o amigo.

_ Estava pensando sobre o que a médium me respondeu sobre o Alliel.

_ Ah, o lance da “escolha”… Esquece isso, afinal, nos temos um futuro grandioso. – e ri ironizando as palavras ditas por Éden.

_ Hey, eu queria me desculpar por não ter te dito nada sobre o anel. Mas é que eu fiquei com medo, por causa da lei de Ariggon, entende? – explica arrependido.

_ Tudo bem, não costumo guardar rancor. Mas por que não o tira?

_ Ele não sai, está grudado ao meu dedo.

_ Isso explica a faixa…

O caminho ainda que incerto, parecia calmo e sem perigo algum. Ambos andavam conversando com seus próprios pensamentos. Dollenc imaginando o tal futuro grandioso que virá a ter e Ryan tentando entender o motivo de ser ele a encontrar o precioso artefato.

Sentia falta de seu computador, onde passava horas conversando com os amigos pelas redes sociais. De sua cama, a qual sempre lhe acomodara nos dias tristes, em que as lagrimas tomavam seus olhos. Sua mãe Helena, que sempre fez das tripas coração, para que o sorriso volta-se aos seus lábios. E seu pai Rick, que apesar de ausente, sempre fora seu maior super-herói.

Queria poder mostrar a eles este mundo tão diferente. Chegou até a imaginar Sarah comendo uma Axpria. Porém, na situação em que se encontra, teria sorte se ao menos pudesse voltar a vê-los um dia.

Sua única chance estaria em encontrar os anéis. Mas onde os mesmos estarão? Num lugar tão grande como este, seria possível encontrar objetos tão pequenos?

Dollenc pelo contrario, pensava num modo de libertar todo esse povo, o qual sofre há tantos anos pela cobiça de Ariggonem unificar Casdia. Seráque seu futuro é este? Ser um salvador ou mesmo um justiceiro que trará liberdade aos oprimidos.

Por alguns instantes, deixa sua imaginação ganhar os ares e assim almejar o que antes parecia impossível. Não sabia se ao certo faria mesmo tudo aquilo, mas tinha certeza de uma coisa. Tudo isso estava relacionado com o estranho amigo e seu misterioso anel.

À noite chega sorrateiramente e como um ladrão rouba o clarão do dia. As estrelas enfeitam o azul, como acessórios de uma árvore em pleno natal.

As pernas cansadas imploram por uma parada e os estômagos vazios gemem por alimento. A escuridão da floresta oculta seus habitantes e apenas os sons de sapos e grilos ecoam em meio ao silêncio.

_ Eu comeria até os brócolis cozidos da minha mãe nesse momento. – comenta Ryan com a mão na barriga faminta.

_ Achei que a médium tinha dito que este anel te permitia fazer o inacreditável. Por que não invoca um banquete?

_ Acho que ele não faz isso, Dollenc. – e fita o objeto em sua mão.

_ Hey, será que os outros anéis também te dão o poder de lançar guardas na parede?

_ Eu tenho cara de vidente? Como eu vou saber…

_ Médium! – corrige-o ao se lembrar de Éden.

_ No momento, eu só queria um hambúrguer. – diz sentindo a água minar na boca.

_ Hangbug o que? Já vai começar com as esquisitices… – e sorri ironicamente.

_ É coisa de onde eu venho… – e retribui o sarcasmo.

_ Bem, não sei o que é esse tal de hangbug. Mas estou aceitando até pedra no momento.

_ Bom apetite. – e lhe entrega um fragmento que achara no chão.

_ Sem graça… Vamos procurar algo pra comer.

_ Certo. – e se levanta do solo

Sem sequer uma tocha para iluminar o caminho, ambos prosseguem por entre os arbustos. A falta de sons lhes permite escutar os próprios passos, que sorrateiros tentam não chamar atenção.

As folhas os tocam dando a sensação de que algo anda por suas costas, o luar é a única fonte de claridade que os rapazes têm para procurar por alimento.

Ryan sente algo deslizar por entre suas pernas. Será aquela cobra outra vez em busca de um segundo round? Permanece imóvel por alguns momentos, na esperança de que a mesma o deixe em paz.

A sensação finalmente passa e seja o que fosse, deveria ter sumido dentre a vegetação.

_ Anda logo. Ou vai se plantar ai? – questiona-o sem paciência.

_ Já vou. Achei que tinha sentido alguma coisa.

_ Pois eu sinto fome… – e antes que prosseguisse reclamando se depara com uma espécie de luz à sua frente.

Ao se aproximarem, percebem que dois soldados conversam distraídos e uma tocha cravada ao chão ilumina uma pequena clareira.

_ O que faremos? – pergunta Ryan ao amigo.

_ Vamos derrubá-los, afinal, são só dois. – e já prepara para o ataque.

_ Hey, espere! Não são apenas dois… Olhe de novo. – e indica a grande aglomeração de tochas a alguns metros depois.

Um verdadeiro exército acampa naquele local, mas o que estariam fazendo ali. De certo se armando para alguma próxima conquista de Ariggon.

_ Aquela louca nos mandou pra um exército? Ótimo, vamos embora daqui.

_ Mas ela disse pra seguirmos por aqui Dollenc. – reluta Ryan.

_ Não, ela disse para seguirmos o sol e no momento você vê algum sol aqui? – e já se apressa em voltar.

_ Ok, mas algo me diz que essa não é uma boa idéia.

_ Chega desse lance de têm algo me dizendo, você não é a Éden. Agora vamos.

Não muito convencido, o rapaz concorda em voltar e procurar um outro caminho. Porém, ao dar o primeiro passo esbarra numa pedra.

_ Merda! – exclama ele.

_ O que foi isso? – questiona um dos soldados.

_ Veja, tem alguém ali! – informa o outro.

_ Droga Ryan… – e volta para socorrer o companheiro.

Ambos são identificados pelos homens que já se armam para o combate. E sem alternativa os rapazes decidem enfrentá-los.

Continua…

Capítulo 5: Em busca de um plano B…

_ Essas barras me parecem mais resistentes, não acha? – diz Dollenc tentando puxar um assunto.

Ryan sem sequer dar atenção ao comentário, permanece quieto e emburrado.

_ Não acredito que ainda está zangado comigo, já pedi desculpas…

_ Desculpas não vão nos tirar daqui. – responde ele sem a mínima paciência.

_ Hey relaxa, vamos dar um jeito.

_ Não se preocupe, esse túnel vai dar num deposito abandonado e sem utilidade, blábláblá. – o imita frustrado.

_ Faz um tempo desde que eu estive aqui e além do mais, errar é humano.

_ Então me diga Dollenc, como vamos fazer para sair daqui?

_ Bem, isso eu ainda não sei.

_ Não pode abrir o cadeado como da ultima vez?

_ Se esqueceu de que a minha ferramenta de fuga quebrou.

Um barulho sinaliza que alguém se aproxima e ambos receosos permanecem calados.

_ Alguém pode me explicar, como esses dois indivíduos invadiram esse lugar tão facilmente? – pergunta um homem inconformado.

_ Eles vieram por um túnel, do qual não tínhamos conhecimento senhor. – responde um dos soldados.

_ Não tinham conhecimento? A missão de vocês é vigiar esse local e não sabem ao menos quais são as entradas e saídas daqui? – questiona o homem.

Os soldados em silêncio apenas ouvem o sermão do superior, que irritado os ameaça e cria hipóteses do que poderia ocorrer se essa falha torna-se a repetir.

_ Eu deveria entregá-los a mercê do general Darike, para que os corrigisse de melhor modo.

_ Imploramos sua compaixão senhor, garantimos que tal erro jamais se repetira. – suplica um deles.

_ Vocês tem sorte, pois hoje estou de bom humor e esquecerei essa falta. – diz ele acariciando a espessa barba.

Após terminar o discurso, o homem se volta para os dois prisioneiros e abrindo um sorriso amarelado pergunta.

_ Então rapazes, vou facilitar as coisas. Digam-me por que estão aqui e quem os mandou.

Nenhum dos dois se propõe a responder e já irritado o barbudo perde a paciência.

_ Vamos tornar mais clara nossa conversa. Vocês me contam o que eu quero saber e eu deixo que vivam. – e faz sinal para que um dos soldados venha com a espada.

_ Viemos apreciar a estrutura, que por sinal tem uma ótima decoração – diz Dollenc sem medo algum.

_ Ora, um piadista? E você rapaz, o que veio fazer aqui. – e olha Ryan sentado.

_ Aula de pilates, senhor.

_ Aula de que? Está zombando de mim? Pois vai se arrepender!Ou melhor, os dois irão! – e sorri pro soldado.

Ele entendendo a mensagem, pega Dollenc pela garganta e o enforca contra as barras da prisão.

Ryan ao vê-lo sufocando, decide contar o que querem saber.

_ Ninguém nos mandou, viemos para procurar um amigo!

_ Amigo? Que amigo?

_ Um prisioneiro, viemos saber se ele ainda está aqui! Agora solta! – e olha pro companheiro quase inconsciente.

_ Solte… – ordena ele satisfeito.

Obedecendo, o soldado libera o pescoço de Dollenc, que sem ar algum tenta respirar em meio à dificuldade.

_ Ao contrario do outro, você me parece esperto rapaz. Agora me diga mais uma coisa… O que sabe sobre esse túnel?

_ Nada senhor.

_ Soldado? – e novamente faz gesto para que torture.

Mais uma vez o subordinado se adianta para ir maltratar o prisioneiro.

_ É serio, eu não sei de nada! Cai nele por acidente! – explica Ryan.

_ Devo continuar senhor? – pergunta o soldado à espera da ordem.

Pensando por alguns segundos, o homem volta a acariciar a medonha barba e chegando a uma decisão os observa contente.

_ Deixe-os, afinal, logo terão muito trabalho nas minas. E enquanto ao túnel, tampem-no para que não tenhamos mais visitas surpresa.

Os soldados sem demora deixam o local, enquanto o homem observa a mão enfaixada de Ryan.

Percebendo o olhar desconfiado, o jovem tenta discretamente esconde-la.

_ Eu a queimei… – fala ele ao curioso.

_ Tomara que isso não o atrapalhe em trabalhar ou será inútil para mim. – e mostra a espada.

Finalmente o homem decide ir embora e suspirando aliviado, Ryan pensa no que aconteceria se fosse descoberto com o objeto proibido.

_ Hey, você está legal? – pergunta ele ao amigo.

_ Sim, aquele soldado nem era tão forte assim. Mas por que contou sobre o nosso plano?

_ Eles iam nos matar. E além do mais nem deram atenção ao que eu falei.

_ E quem da? – satiriza ele, pondo a mão no pescoço dolorido.

_ Não tem graça. Bem, temos que pensar num jeito de sair daqui.

_ Só mais uma coisa Ryan…

_ O que?

_ Aula de pilates? Que diabos é isso? – pergunta Dollenc confuso.

_ Esquece, mesmo que você soube-se, não iria curtir. – e ri da pergunta inoportuna.

Colocando suas mentes para funcionar, tentam bolar uma forma de sair deste local, porém sem sucesso.

As horas vão se passando e a cada instante, eles parecem menos certos do que fazer.

Teriam de achar uma forma de sair daquela cela, distrair os soldados e até mesmo passar pelos animais localizados nas saídas. Contudo, ainda teriam de procurar por Alliel, antes de irem embora.

_ Não tem jeito, já quebramos nossas cabeças, matamos todos os nossos neurônios e ainda continuamos na mesma. – desabafa apoiando as costas na parede suja.

_ Eu já te disse que além de chato, você é esquisito? – pergunta Dollenc desanimado.

Ele sem dar importância ao insulto, apenas observa a mão e pensando no que já fizera depois de ter posto o misterioso anel, resolve tentar uma coisa.

Se levantando, respira fundo e concentrado coloca as mãos sobre as barras de ferro.

_ O que vai fazer? – pergunta Dollenc estranhando a ação.

_ Fica quieto, preciso me concentrar. – pede ele fechando os olhos.

_ Dessa vez, eu é quem quero ver – e observa a curiosa cena.

Ryan força duas das barras, na intenção de criar uma brecha para poderem passar. Entretanto elas permanecem firmes e fortes.

_ Está ficando louco ou o que? – questiona Dollenc surpreso.

_ Vamos lá… Vamos… – sussurra ele tentando novamente.

Por um breve instante as sente cedendo e se afrouxando alguns milímetros. No entanto, suas forças se vão e Ryan resolve desistir.

_ Quem você pensa que é? Algum tipo de ser supremo?

_ Eu só pensei que… Tem razão. – e se afasta delas.

_ Cara, você é muito estranho mesmo.

Sentindo-se impotente e ao mesmo tempo confuso, Ryan tenta encontrar uma explicação lógica para os acontecimentos. Que vão desde a sua chegada a este lugar, ate as demonstrações de força sobre humana que tivera.

O som de passos quebra o silêncio e logo alguns soldados aparecem.

_ Hey, vocês dois venham conosco. – ordena um deles abrindo o cadeado.

Os jovens se olham e já pensam em tentar fugir. Porém os soldados retiram suas espadas das bainhas e os observam cautelosos.

_ É melhor não tentarem nada, pois estou louco para testar se afiei bem a minha espada. –ameaça um outro.

Resolvendo não arriscar, preferem deixar que os levem. Assim pelo menos, poderiam observar melhor o local e buscar uma saída dessa situação.

Acompanhados pelos guardas, eles atravessam vários corredores e a cada instante pode-se ouvir melhor a batida de picaretas contra as paredes.

O chicote estrala algumas vezes, dando uma amostra de quão severa é a punição, para quem não cumpre sua meta.

Parando finalmente, os soldados fazem sinal para que os rapazes entrem num dos corredores e ainda que receosos quanto à ordem, os mesmos obedecem.

Adentrando este lugar desconhecido, logo se deparam com dúzias de trabalhadores, que sem descanso prosseguem a mineração.

Suas faces tristes e sujas pelo duro trabalho, retratam uma cena jamais vista por Ryan. Que impressionado, só consegue olhar os pobres escravos.

_ Não se preocupe, vou dar um jeito de nos tirar daqui. – sussurra Dollenc para o amigo amedrontado.

_ Carne nova? Venham até aqui! – ordena um homem careca e deveras baixo.

Sem discutir ambos se encaminham até ele, que com uma risada arrogante os recebe.

_ Por enquanto podem trabalhar assim mesmo, vamos deixar a melhor das surpresas para depois do pôr do sol. – e observa contente a feição de pânico de Ryan.

Dollenc pelo contrario, permanece calmo e sério. Como se já estivesse acostumado com essa realidade.

Tendo seus punhos presos por correntes e recebendo as ferramentas de trabalho, logo são postos em uma das paredes, para que iniciem a escavação.

_ O que estão esperando, precisam de um incentivo? – e já retira o chicote da cintura.

Sem alternativa, os rapazes obedecem e começam a perfurar a parede rochosa.

Após alguns minutos escavando, Ryan encontra o primeiro pedaço de ouro e ainda que sujo, o precioso metal encantava seus olhos.

No entanto antes que pudesse admirar, o valioso fragmento é retirado de suas mãos pelo carrasco.

_ Continue! – ordena-o colando o pedaço num dos carrinhos enferrujados.

Cada segundo ali, parecia durar a eternidade e o calor do local maltratava ainda mais os corpos exaustos.

_ Isso é desumano – comenta Ryan ao amigo.

_ Percebeu que eles mantêm nossas mãos amarradas não por que tem medo que nos rebelemos, mas sim para dificultar a escavação? – pergunta Dollenc já exausto.

Ainda que tivesse uma resistência maior, Ryan começava a sentir suas mãos pesarem e o cansaço que antes nem lhe afligia, agora lhe perturba aos poucos.

_ Dollenc? E você mesmo garoto? – pergunta uma voz fraca.

_ Hã? Sebastian? Ainda está aqui? – questiona surpreso ao reconhecer o velho no meio dos mineradores.

_ Nem todos tem a mesma sorte que você meu filho. Que a propósito, não deveria estar aqui. – e se aproxima observando se os guardas lhe notam.

_ É uma longa história, mas e você não deveria ter sido solto?

_ Solto, eu? Eles não libertam ninguém.

_ Mas e enquanto aquela recompensa para aqueles que já contribuíram por toda a vida aqui.

_ Está falando da morte? Pois é só o que ganhamos quando nos tornamos inúteis.

Ryan apenas ouve discretamente a conversa, enquanto continua perfurando a parede.

_ Então eles mentiram… – e aperta com força o punho.

_ Você continua ingênuo como sempre Dollenc. Só continuo aqui, por que ainda sonho em ver o nascer do sol novamente.

_ E você vai, é uma promessa. – e olha determinado para o velho conhecido.

_ Você não mudou em nada mesmo. – e sorri conformado.

_ Não se preocupe, amanha mesmo você vai realizar seu sonho. – e o abraça discretamente.

_ O que está acontecendo aqui? Por que está fora de seu lugar velho? – diz o carrasco já retirando o chicote.

_ Eu, eu estava… – porém antes que terminasse a explicação, recebe uma forte chicotada na costela.

Caindo ao chão, o pobre velho se contorce em meio à dor e enfurecido Dollenc se adianta para golpear o cruel homem.

_ Dollenc, não! – pede Ryan, segurando como pode o amigo.

_Vamos lá rapaz, me de um motivo para açoitá-lo até a morte, junto de seu amigo e esse velho inútil. – e o provoca com um sorriso.

Dollenc luta em escapar por alguns instantes, mas percebendo que isso não lhe traria vantagem alguma, opta por esfriar a cabeça e ajudar o pobre caído.

_ Você está bem Sebastian? – e juntamente com Ryan o levanta do chão.

_ Não se preocupe comigo, depois de tanto tempo já estou calejado – e abre um meio sorriso.

_ Chega de drama ou vão sentir toda a potência dos meus braços. – diz o carrasco irritado com a conversa.

Dollenc sem dizer uma palavra sequer, pega a ferramenta do chão e prossegue o trabalho em silêncio.

O velho se sentindo um pouco melhor volta ao seu lugar e ainda que sem muita firmeza nas mãos enrugadas, continua a trabalhar.

Ao contrário dos demais, Ryan permanece a encarar o homem. Sua mão enfaixada libera um pequeno brilho dourado, o qual nem é percebido pelo carrasco, que apenas retribui o olhar.

_ Eu disse, ao trabalho! – brada ele chicoteando o chão empoeirado.

Voltando finalmente a sua posição, o jovem inconformado escava a parede rochosa. E aplicando todo o seu ódio ao instrumento quebra sem muita dificuldade as barreiras de pedra.

Impressionados, os outros mineradores apenas observam a energia do rapaz. Que sem notar os olhares segue irritado com a tarefa.

_ Ryan? – chama Dollenc surpreso.

_ O que? Hã? – e finalmente percebe o que acabara de fazer.

_ O que foi isso?

_ Eu não sei… – mas antes que disse qualquer outra palavra, escuta a voz do carrasco.

_ Chega por hoje, bando de preguiçosos! Larguem as ferramentas ao chão e sigam em fila até as celas.

Ouvem-se muitos gemidos de alivio e obedecendo às ordens, todos deixam as picaretas e se encaminham por um corredor.

_ Vocês dois ai! – e já arma o chicote.

Ryan e Dollenc param temerosos e aguardam o que o cruel homem tem a dizer.

_ Se recordam de que eu lhes disse que tinha uma surpresa? – e os olha com felicidade.

Permanecendo em silêncio, eles apenas esperam pelo pior. Enquanto o carrasco alegre guia-lhes por um caminho suspeito.

_ O que ele quer com a gente? – pergunta Ryan assustado

_ Olha Ryan… Você vai ter que ser forte, ok? – explica Dollenc sério.

_ Como assim? O que vão fazer com a gente? – e sente o medo lhe tomar o peito.

_ Calados! – ordena o carrasco abrindo uma porta.

Ao adentrarem, sentem o calor produzido pela grande fornalha, que alimentada pela madeira, libera uma grande quantidade de fumaça sobre o local.

Dois soldados os esperam, juntamente com um ferro posto sobre as chamas.

_ Vejamos, quem será o primeiro? – e os observa indeciso.

Seus olhos frios fitam ambos os prisioneiros e pegando o ferro com um protetor, faz um gesto para que Dollenc se aproxime.

Sem medo e sabendo o que lhe aguarda, o jovem se encaminha em direção ao carrasco e sendo imobilizado pelos soldados, é obrigado a se ajoelhar.

O ferro fumegante traz em sua ponta uma espécie de símbolo, formado por dois Gs que se encontram.

Ryan finalmente entendendo do que se trata tenta ajudar o amigo, contudo, é obrigado a parar ao ver uma faca posta no pescoço do rapaz.

_ A não ser que queira vê-lo sangrando até morrer, é melhor se afastar – ameaça ele rindo.

Não havendo nada que pudesse fazer observa inconformado à cena, enquanto o carrasco abaixa a cabeça de Dollenc deixando visível sua nuca.

_ Mas o que significa isso? Você já é marcado? – e observa a marca já posta no rapaz.

_ Larga ele! – pede Ryan apreensivo.

_ Você já fugiu daqui? Ninguém foge! – diz ele surpreso.

_ Esse ninguém, não inclui a mim. – responde Dollenc sorrindo.

Sem acreditar no que acabara de ver, o carrasco permanece pensativo por um tempo e bravo apenas lhe solta.

_ Veremos se fugirá outra vez, tragam o outro – ordena ele irritado.

Percebendo que sua vez chegara Ryan tenta se desvencilhar dos soldados, que o imobilizam e o arrastam pra perto do marcador.

_ Me soltem! – suplica assustado.

O carrasco sorri ao abaixar a cabeça do rapaz e ver que dessa vez não houve surpresa.

_ Relaxe, será como uma picadinha de formiga – e já aponta o ferro no alvo.

Vendo o desespero do amigo, Dollenc se sente incapaz e de certa forma culpado pelo que irá acontecer.

_ Não! – exclama Ryan já sentindo o calor do instrumento se aproximando.

Sentindo aquela estranha ardência novamente, ele empurra os soldados que se colidem contra as paredes e caem atordoados. Enquanto o carrasco apavorado se afasta e posteriormente investe com o perigoso objeto contra o rapaz.

Porém antes que o ferro lhe toca-se, Ryan segura a mão do homem e a aperta com força.

Soltando um estranho gemido, ele deixa o instrumento cair e ajoelhando-se olha assustado para o prisioneiro.

Dollenc sem acreditar no que acabara de testemunhar, observa embasbacado o amigo que levanta.

_ O que é você? – sussurra o homem acariciando a dolorida mão.

Sem responder à pergunta, o rapaz apenas golpeia-o e o lança ao chão.

_ Não temos muito tempo, é melhor irmos agora. – sugere Ryan.

_ Mas como você fez isso?

_ Depois conversamos, vamos! – e puxa o companheiro.

Com muitas perguntas Dollenc o acompanha, enquanto o rapaz procura pela saída mais próxima.

_ Hey, não podemos ir! – e para no meio do caminho.

_ O que foi Dollenc?

_ Preciso resgatar Sebastian – e corre na direção oposta.

Sabendo já o caminho das celas, ele rapidamente adentra o lugar e os prisioneiros surpresos pedem pela liberdade.

_ Dollenc? O que houve? – pergunta Sebastian no meio da multidão.

_ Vim tirá-lo daqui, meu amigo. Só preciso de algo que quebre esses cadeados. – e pensa numa maneira de libertá-los.

_ Isso serve? – pergunta Ryan com a picareta em mãos.

_ Boa garoto – e pega a ferramenta do amigo.

A confusão se arma e os cativos eufóricos já comemoram a liberdade.

_ Que confusão é essa? – pergunta um soldado chegando ao local.

Retirando sua espada, ele investe para conter a invasão. Porém, Ryan o derruba com um chute no estomago.

Numa pancada, Dollenc liberta os prisioneiros que rapidamente correm rumo à liberdade.

_ Eu prometi que você veria o nascer do sol, não é? – fala Dollenc dando um abraço no velho senhor.

_ Vamos! – apressa Ryan pegando a espada do soldado.

Os cativos correm pelas passagens e derrubam tudo e todos a sua frente. Nada parece conte-los e a vitória está perto afinal.

_ O que está havendo aqui? – Brada o comandante barbudo ao ver a confusão.

_ Os prisioneiros se rebelaram senhor! – avisa um dos subordinados.

_ Detenham-nos, soltem os lobos e fechem as saídas! Quero cada soldado dessa prisão caçando esses miseráveis! – ordena furioso.

Pouco a pouco as saídas são trancadas e os lobos ferozes atacam os prisioneiros que aparecem pelo caminho.

Gritos de dor e pânico são ouvidos, enquanto os soldados se armam para render os fugitivos.

Sebastian e os rapazes procuram por uma passagem livre. No entanto por onde passam só vêem morte e violência.

_ Todos nós vamos morrer e os que não forem mortos, voltaram para as celas. – desabafa o velho já sem esperança.

_ Acabou, é melhor nos rendermos – sugere Ryan.

_ Chegamos muito longe pra desistir agora. Venham eu tive uma idéia. – afirma Dollenc indo por uma das passagens.

_ Para onde vamos? – pergunta Sebastian cansado.

_ Com sorte, para a liberdade! – responde o rapaz entrando numa porta.

Sem entender o que Dollenc quis dizer Ryan apenas o segue. Seguido pelo velho prisioneiro que caminha ofegante.

_ Eu sabia, aqueles preguiçosos nem tamparam ainda o buraco! – diz ele fazendo sinal para que os dois entrem.

A esperança novamente habita em seus corações e subindo pelo túnel, já avistam a luz do luar.

Saindo, se deparam com a horrível cena de corpos sendo mutilados pelos lobos e espadas se sujando de sangue.

_ Temos que ajuda-los! – diz Ryan não suportando mais a situação.

_ Não há nada que possamos fazer meu jovem… Se formos lá, não voltaremos – explica Sebastian.

_ Mas… Dollenc? – e observa o companheiro de cabeça baixa.

_ Vamos embora… – diz ele triste.

Os gritos cessam e o silêncio que se espalha, serve de luto às vitimas.

_ Vi alguma coisa se mexendo ali! – brada uma voz seguida de diversos passos.

Ouvindo isso, os três fugitivos se escondem por entre os arbustos e assim ficam por varias horas.

Seus corpos cansados pelo duro trabalho e a correria da fuga, pedem pelo sono. E os olhos pesados, se fecham na esperança de um amanha melhor.

———————————————-//————————————————–

Uma gota formada pela umidade da madrugada, escorrega por entres as folhas da vegetação e caindo sobre o rosto do rapaz, o desperta de seu sono.

Ao abrir seus olhos, Dollenc observa o céu que já clareia com o nascer do sol.

_ Ryan. – chama-o contente.

_ Hã? O que houve? – e levantando-se esfrega os olhos.

_ Conseguimos. Estamos livres novamente. – comenta com um sorriso.

_ É estamos, estamos livres! – comemora ao se dar conta da situação.

Felizes, ambos observam a alvorada. Que se torna ainda mais bela com o voar dos pássaros.

_ Hey Sebastian, acorde! Está perdendo! – alerta o rapaz sem tirar os olhos da bela paisagem.

No entanto, nenhuma resposta retorna do velho, o qual permanece imóvel ao chão.

_ Sebastian, acorde! O dia está nascendo! – repete Dollenc virando-se.

Mas ao fazer isso, tem uma terrível surpresa quanto ao amigo. Sua face pálida reflete a falta de vida, assim como seu coração que parara de bater no peito.

_ Sebastian? – chama o com as lagrimas já se encaminhando aos olhos.

_ Qual o problema Dollenc? – pergunta Ryan virando-se também.

_ Ele… Morreu… – afirma abraçando o velho.

_ Foi demais pro seu coração. Toda aquela correria e trabalho o mataram.

_ Não! Eu o matei. Ao invés de libertá-lo… Levei-o para a morte – e aperta com força o corpo sem vida.

_ Não foi culpa sua, você cumpriu sua promessa. O tirou daquele lugar. – e coloca a mão em seu ombro.

_ Ele nem chegou a realizar seu sonho. – e com os punhos soca a terra.

_ Pode não ter visto aqui, porém tenho certeza de que em seus sonhos Sebastian se viu realizado. – fala Ryan tentando consolar o amigo.

Após enterrá-lo com as próprias mãos, Dollenc permanece calado. Seus olhos frios e sem qualquer motivação, apenas vasculham uma razão para continuar.

_ Devemos ir. – sugere o amigo.

_ Quero ficar aqui pensando. E além do mais para onde iríamos? – diz jogando uma pedra sem rumo.

_ Não sei, mas alguém me disse que ficar parado e se lamentando não muda a situação. – explica Ryan andando.

Aquelas palavras ditas antes por ele mesmo, o dão força e pondo-se em pé caminha junto do companheiro.

Sentindo-se estranho, Ryan nota que tudo desaparece a sua volta e caindo ao chão sente que suas pernas não possuem mais força.

_ Ryan! O que foi? – pergunta Dollenc ao vê-lo naquele estado.

Sem conseguir responder à pergunta, o jovem grita desesperado. Suas veias parecem explodir uma a uma e a falta de ar o leva a angustia.

_ O que está acontecendo com você? – e procura por algum indicio da causa do estranho comportamento.

_ Essa não! – exclama ele ao retirar a camiseta do amigo.

Uma marca de presas é visível em seu ombro, que com uma coloração diferente incha cada vez mais.

A voraz predadora conseguira ataca-lo sem que pudesse perceber e injetara naquele ferimento seu veneno mortal.

Continua…

Capítulo 4: Para as minas…

A noite já resplandece no céu, as estrelas brilham entre si e desenham diferentes formas na imensidão azul.

A temperatura amena traz uma agradável sensação de frescor e as brisas suaves fazem com que as chamas da fogueira dancem entre si em meio ao silêncio.

Sentados a sua volta, Ryan e Dollenc repousam depois de um longo dia de aventura.

_ Que dia, não acha? – pergunta Dollenc deitando-se sobre a rala vegetação.

_ É mesmo… Acho que nunca em toda a minha vida, pensei em fazer algo parecido. – comenta Ryan.

_ Foi um plano arriscado…

_ Como assim?

_ Bem, você acha mesmo que os soldados me capturaram?

_ E não foi isso?

_ Não. Eu queria que me pegassem. – responde ele sorrindo.

_ Por que faria isso? A não ser que…

_ Que eu quisesse libertar os reféns? – completa Dollenc.

_ Entendo… Foi um ótimo plano.

_ Que nada – e volta os olhos para o céu estrelado.

Por alguns instantes permanecem calados, cada qual com seus próprios pensamentos e em meio ao silêncio podem-se ouvir os estalos provocados pela queima da madeira ao fogo.

_ Hey, Dollenc.

_ Sim?

_ Foi uma atitude muito nobre da sua parte, ficar e socorrer a garota.

_ Qualquer um faria isso.

_ Eu penso que não, bem não sei se eu mesmo o faria.

_ Agora você me deixou confuso. Você fez a mesma coisa por mim, teve a oportunidade de ir e me deixar lá, mas preferiu voltar apesar disso.

_Hum? Eu fiz?

Dollenc não se contém ao ver à surpresa de Ryan e começa a rir.

_ Sim. Afinal, você foi tão valente quanto eu naquela prisão. – o elogia retomando o fôlego.

Porem seu sorriso logo se desfaz e a seriedade o toma por completo.

_ Qual o problema, você libertou aqueles jovens. Por que essa cara?

_ Por pouco tempo, logo aqueles soldados vão voltar e tira-los de suas famílias novamente. Eu só queria poder terminar com tudo isso.

_ Sei bem do que você está falando. Eu conheci um casal que estava inconformado do mesmo modo.

_ Colonos?

_ Sim, eles me acolheram quando eu precisei e agora nem sei ao certo se estão vivos.

_ E as coisas só tendem a piorar…

_ Mas e você. O que aconteceu aos seus pais?

Sem responder à pergunta, Dollenc permanece sério e quieto.

_ Me desculpa, sei que não é da minha conta. – diz Ryan ao perceber o estado do rapaz.

_ Tudo bem, eles morreram quando eu ainda era um bebe. – responde sentando-se.

_ Sinto muito…

_ Houve um incêndio e até onde sei, apenas eu sobrevivi.

_ Bem, então não tem certeza de que estão verdadeiramente mortos. Quem sabe se… – porem sua hipótese logo é interrompida.

_ Se estivessem vivos, não acha que eles teriam me procurado?

_ Talvez não soubessem que você sobreviveu e estejam sofrendo da mesma forma.

_ Não estou sofrendo, o que passou não importa mais. Como eu já te disse, ficar se lamentando não muda a situação.

Ryan resolve deixar de lado o assunto, para não irritar ainda mais o companheiro.

_ O que tem de errado com a sua mão? – pergunta Dollenc mudando de assunto.

_ Nada, é só que…

Lembrando-se da lei imposta em Ariggon, Ryan opta por omitir a verdade.

_ Eu a queimei.

_ Deve ter doído pra caramba. Posso dar uma olhada?

_ É melhor não, ainda está um pouco dolorido… Por acaso sabe onde ficam essas tais minas? – desconversa Ryan se desvencilhando das mãos de Dollenc.

_ Sei, não ficam muito longe. Por que a pergunta? – responde-o ainda que achando estranha sua reação.

_ Lembra-se do casal que eu te falei agora pouco. Bem, eles tinham um filho que foi levado aos 16 anos de idade.

_ Eles sempre fazem isso, mas há quanto tempo?

_ Cerca de 20 anos.

_ 20? É um bom tempo.

_ Eu sei, mas você me disse que os prisioneiros são levados para as minas. Talvez ele ainda esteja lá. – explica Ryan esperançoso.

_ Há uma possibilidade.

_ Eu devo isso a eles e preciso que me leve até lá. Você me ajuda?

_ Será um prazer. Mas você está fazendo aquilo novamente, sabia?

_ Fazendo o que? – pergunta Ryan sem ter a mínima idéia do que se trata.

_ Você podia esquecer essa história e estar procurando um meio de voltar pra casa, mas prefere se importar com esse rapaz que você nem conhece. – responde Dollenc.

Pensando no que acabara de ouvir, Ryan apenas observa com um sorriso o céu azul.

_ Alliel… – sussurra ele pensativo.

_ Ah to exausto, vou dormir agora. Boa noite. – e espreguiçando deita-se novamente.

_ Boa noite, Dollenc.

Ryan pelo contrario está enérgico e sem vontade alguma de descansar. Seus olhos fixos na bela paisagem refletem o brilho das estrelas.

O silêncio da noite permite a ele escutar seu próprio coração, o qual pulsa lentamente e sem pressa alguma. Nunca vivera uma aventura como essa, salvando pessoas, conhecendo histórias e enfrentando desafios.

Por alguns instantes sente que tudo está perfeito, nada precisa ser colocado ou mesmo tirado dali.

Finalmente o sono começa a incomodar seus olhos, que em resposta ficam mais pesados e acomodando-se ao lado da fogueira, relaxa e deixa que seus sonhos comecem a surgir.

Pela primeira vez desde que chegou a este lugar, Ryan não pensa em ir embora, mas sim em aproveitar sua estadia.

———————————————-//————————————————–

_ Ryan – chama a voz.

Seus olhos se abrem sonolentos e instantes depois se fecham em busca de retornar ao que estavam vendo antes do chamado.

_ Ryan, acorde.

_ Hã?

_ Já amanheceu, temos de ir – explica Dollenc.

Ainda que meio preguiçoso se levanta, coça a cabeça e observa a paisagem.

_ Hey, não me ouviu dizer que temos de ir. – alerta o rapaz.

Acostumado a se levantar e receber o café da manha fresquinho na cozinha, ele anda desanimado e cheio de fome.

_ Rápido, desse jeito só vamos chegar lá amanha.

_ Como posso andar mais rápido, se meu estômago ta vazio e eu sequer lavei o rosto?

_ Como você reclama hein. Tem um riacho aqui perto, vai poder lavar o rosto e encontrar algo pra comer.

Cerca de meia hora de caminhada depois, encontram o local que Dollenc explicara.

Ali lava o rosto e procurando pelas arvores, encontra algumas amoras que servem para acalmar um pouco sua fome.

_ Podemos ir?

_ Só preciso fazer mais uma coisa… – diz Ryan meio envergonhado.

_ Ah… E o que é? – pergunta Dollenc apressado.

_ Eu preciso, esvaziar…

_ Esvaziar, o que? – pergunta novamente sem paciência.

_ Preciso fazer xixi! – responde ele desconcertado.

_ E daí? Acha algum lugar e faz.

Provavelmente não encontraria um banheiro naquele local e escolhendo um lugar aleatório se “esvazia”.

_ Mas alguma coisa? – ironiza Dollenc sorrindo.

_ Não, podemos ir.

Por parte do caminho, Ryan pode ouvir alguns risinhos disfarçados do companheiro, que por sinal são dirigidos a ele.

_ Falta muito?

_ Não, estamos quase lá.

_ Já pensou num meio de entrar e sair sem sermos vistos? – questiona Ryan caminhando.

_ Não, como a idéia foi sua, achei que já tivesse um plano elaborado.

_ Você é o cara dos planos, se esqueceu?

_ É melhor descansarmos um pouco aqui e pensar numa maneira de fazer isso dar certo. – e senta-se numa pedra.

_ Certo, acho que vou procurar algo para comer enquanto você faz isso. Aquelas amoras já digeriram. – e já caminha por uma direção qualquer.

_ Ok. Folgado… – sussurra Dollenc.

Sem fazer a mínima idéia de onde ir, Ryan anda sem rumo pelo que parece ser uma floresta.

As diversas árvores cobrem o caminho, porém cada qual em seu espaço. Algumas já florescendo, outras buscando crescer junto ao sol.

O aroma liberado pelas mesmas perfuma o local e logo a sua frente, Ryan observa uma clareira.

Se aproximando, sente o sol ainda fraco bater em seu rosto e o canto das aves que sobrevoam o local invade seus ouvidos.

_ Vejamos, onde posso encontrar algo de comer aqui – diz a si próprio analisando a variedade de plantas.

Lembrando-se das aulas de biologia que tivera com a professora Simone, procura por árvores que tenham frutos já comidos pelos pássaros. Assim poderia ter certeza de que não escolheria algo que lhe pudesse fazer mal.

Vasculhando, encontra uma árvore meio que familiar. Seus frutos ligados a uma espécie de cipó e semelhantes à maça, lhe trazem recordações.

_ Axprias! – exclama ele ao identificá-las.

Agarrando um dos frutos, retira-o do cipó e dando uma mordida saboreia o gosto da fruta.

_ Sem duvida é muito bom – comenta mordendo novamente.

_ Vou levar algumas pro Dollenc. – e se estica para apanhá-las.

Uma, duas, três frutas são retiradas, contudo ao ir apanhar a quarta o jovem tem uma terrível surpresa.

Camuflada como um dos cipós, uma espécie de cobra, se apressa em lhe dar o bote e ao vê-la, Ryan cai no chão assustado.

Imóvel e calma, ela apenas o observa friamente. Enquanto o jovem sem saber como agir naquele momento, tenta ao máximo se afastar.

Aproximando-se cautelosa, a espessa caçadora mostra suas presas ao rapaz, que temeroso fecha os olhos a espera da morte.

Pronta para o ataque, ela investe em busca do seu alimento, porém é impedida por uma pedra que lhe acerta a cabeça.

_ Ryan, corre! – adverte Dollenc.

Sem pensar duas vezes o jovem obedece e se afasta aos tropeços do animal.

Porém a predadora não parece querer sair dali sem um lanche e investindo novamente mira o rapaz que corre.

_ Joga uma! – pede Dollenc olhando os frutos na mão do parceiro.

Não sabendo ao certo o porquê do pedido, ele lança uma das axprias para o mesmo, que corre em direção ao animal.

Enfiando-a na boca da adversária, ele a impede de obter sucesso em seu ataque.

Engasgada e com as presas bloqueadas pelo fruto, a cobra não vê alternativa senão deixa-los em paz.

Ryan suspira aliviado ao vê-la rastejar e sumir por entre os arbustos.

_ Você está bem? – pergunta Dollenc retomando o fôlego.

_ Aham… Obrigado.

_ Sabia que ia se meter em encrenca. – e ri da situação.

_ Para de rir! Eu quase morri agora!

_ Quase… Mas o Dollenc aqui, salvou o dia novamente.

_ Convencido… Eu ainda vou retribuir.

_ Sei, agora vamos. Cara precisava ver seu rosto de: Ai! Não me mate! – e o imita correndo.

_ Calado, eu fui pego de surpresa. – explica bravo.

Sem conseguir segurar mais o riso, Dollenc gargalha enquanto ambos retomam o caminho.

Voltando à pedra onde os mesmos estavam antes da confusão, eles discutem uma estratégia para adentrarem as minas em segurança.

_ Então ficamos combinados assim. – confirma Dollenc.

_ Certo, mas e se o plano falhar? – questiona Ryan.

_ Não vai falhar. Não se você fizer direitinho o que combinamos.

_ Mas precisamos de um plano B caso as coisas não dêem certo com o A. – argumenta o jovem cauteloso.

_ O plano B é… Vejamos… Correr feito louco.

_ Muito bem, senhor Inteligência.

_ Quer ficar aqui fora formando um alfabeto de planos ou quer conferir se o cara está lá dentro?

_ Tudo bem, que mau humor.

Levantando-se continuam em direção as minas e minutos depois já a avistam mesmo que de longe.

Guardas perambulam por entre as entradas e se já não bastassem os mesmo, há vários lobos amarrados em lugares estratégicos.

_ Olha, é uma fortaleza. – comenta Ryan observando os obstáculos à frente.

_ Lobos? Não tinham lobos quando eu vim aqui da ultima vez.

_ Não? Espera um pouco… Você já esteve aqui?

_ Sim. Há algum tempo.

_ E por que não me disse nada?

_ Você não perguntou, oras.

_ Mas e agora, nunca vamos passar por tudo aquilo.

_ Relaxa Ryan, sem desespero ok? Sei como podemos entrar facilmente.

_ Então me diga, como?

_ Tem um túnel escavado por entre esses arbustos e através dele podemos passar sem que nos percebam.

_ E onde está?

_ Bem… Faz um tempinho, mas tenho certeza que está em algum lugar por aqui. Só precisamos encontrar.

_ Só você mesmo pra não se lembrar de uma coisa tão importante.

_ Mas como você reclama, prefere passar pelos guardas e lobos ali na frente?

Ryan permanece em silêncio e apenas vasculha o local.

_ Você deve ter se enganado, não tem nenhuma passagem por… – mas antes que pudesse terminar a frase se vê dentro de um buraco.

_ Ah! Estava ai! Bom trabalho Ryan. – cumprimenta Dollenc.

_ Digamos que eu tenho um talento natural para cair em buracos. – responde ele se lembrando de como veio parar nesse lugar.

O túnel ainda que estreito, parecia firme e a medida que desciam tudo se tornava mais difícil de enxergar.

_ Tem certeza de que este buraco vai nos levar lá dentro? – pergunta Ryan parando no meio do caminho.

_ Hey, eu já menti pra você?

_ Durante essas 18 horas que passamos juntos… Não.

_ Não tem com que se preocupar, esse túnel termina num deposito antigo e sem utilidade.

_ Se você diz. – e começa a rastejar novamente.

Sem sequer verem o que está a um palmo de suas vistas, ambos prosseguem a descida, até que Ryan enxerga uma luz logo à frente.

_ Estou vendo algo – comenta ao parceiro.

_ O que está esperando? É melhor nunca mais desconfiar da minha palavra, amigo.

Adiantando-se, Ryan prossegue em direção a luz e empurrando algo que o impede de continuar, passa pela saída.

_ E então, eu não te disse para relaxar. Aqueles idiotas jamais nos descobrirão.

Porem não ouve nenhuma resposta do lado de fora.

_ Ryan, está me ouvindo? – fala Dollenc deixando finalmente o túnel.

Ao sair, percebe que o jovem está quieto ao seu lado e voltando-se para frente avista o que parece ser uma mesa repleta de comida e da mesma forma soldados.

_ Depósito antigo hein? – ironiza Ryan cutucando-o.

_ Eles não estavam aqui da ultima vez…- responde Dollenc surpreso.

Os guardas retiram suas espadas e se aproximam dos jovens, que sem qualquer forma de escapatória apenas levantam as mãos em sinal de rendição.

Continua…

Capítulo 3: A história de um órfão…

_ Onde eu deixo este aqui?

_ Coloque-o separado dos demais. Disseram-me que ele é meio encrenqueiro.

Ryan sente que alguém o empurra e ao cair, percebe que barras de ferro o envolvem.

_ Aí ele não nos causara problemas.

As vozes desconhecidas se calam e o barulho dos passos diminui aos poucos, até não poderem ser mais ouvidos.

Sem saber onde se encontra e com uma forte dor na nuca, Ryan mais uma vez está perdido, no entanto, dessa vez não poderá contar com a sorte de ser encontrado por Bernard e Clara.

Seu coração apertado, se pergunta o que terá ocorrido a ambos. Será que também foram capturados? Será que ao menos estão vivos?

A prisão é fria, tanto quanto sólida e Ryan sem saída só pode esperar por um milagre que lhe tire de tão desconfortável situação.

Os passos são ouvidos novamente e trazem consigo um arrastar de pés, enquanto ele permanece em silêncio, temeroso com a volta dos soldados.

Junto deles vem um rapaz, na certa desacordado, como estivera instantes atrás.

_ Coloque-o com o outro que acabamos de trazer.

_ Tem certeza disso?

_ Bem, caso um deles morra, saberemos que o outro será de grande utilidade – e gargalha ironicamente.

Aberto o cadeado, Ryan pensa em sair correndo, porém, ao se dar conta de que não iria muito longe e que nessa tentativa poderia ser morto, resolve não arriscar.

Empurrado porta adentro, o desconhecido cai no chão ainda inconsciente.

_ Algum problema? – pergunta um deles franzindo a testa ao ver o olhar de Ryan.

Em silêncio continua a encara-los, enquanto o cadeado novamente é trancado.

_ Não gostou de seus aposentos senhor?  Esperamos que aproveite a estadia – debocha o outro.

Em meio aos risos ambos deixam o local.

Ryan certifica-se de que a cela está mesmo trancada e confirmando suspira angustiado.

Sua mente é a única que pode vagar para fora dali e sentado pensa em sua família, seus amigos e tudo mais que não voltará a ver.

Olhando para a mão enfaixada, se recorda dos desabafos feitos por Bernard, o qual juntamente com Clara, tão generosamente lhe acolhera.

Será que não há mais esperança para este lugar intitulado Casdia? E tudo o que lhe resta é apodrecer ali, sem que ao menos possa beijar o rosto de Helena sua mãe?

_ No que está pensando? – pergunta o desconhecido se levantando.

_ Se um dia vou sair daqui… – e suspira desmotivado.

_ Bem, sair você vai, mas não sei se vai gostar da próxima parada.

_ Pra onde vão nos levar?

_ Pra onde mais levariam, para as minas ou se for escolhido,  talvez o exército.

_ Hum…

_ Hey, você não se parece com um colono, nunca vi roupas tão estranhas.

_ Isso é… Bem, coisa de onde eu venho. – e abre um breve sorriso.

_ E da onde você vem? Talvez do norte?

_ Eu sou de Hopewell, Virg… Ah esquece, você não deve conhecer mesmo.

_ Mas como veio parar aqui?

_ Na verdade, eu não sei…

De cabeça baixa, apenas observa o chão imundo, mas, risos lhe chamam a atenção.

_ Qual é a graça? – pergunta Ryan, observando o jovem que ri incessantemente.

_ Não é nada… Nada mesmo. – e prossegue rindo.

_ Não vejo nenhum motivo pra você rir desse jeito – e da às costas ao estranho.

_ E por que eu não deveria rir? – pergunta retomando o fôlego.

_ Talvez pelo simples motivo de estar preso e não ter a mínima possibilidade de ser livre novamente?

_ E chorar ou ficar me queixando vai mudar essa situação? – questiona ele, tornando-se sério.

_ Não, mas rir não vai nos tirar daqui também. – responde Ryan sem paciência.

_ Nisso você pode estar certo. Bem, acho que vou sair agora. – e procura por algo nos bolsos.

_ Essa eu quero ver.

_ Achei. – e abre o sorriso ao pegar um pequeno arame.

Contorcendo o pequeno objeto, enfia-o no cadeado e após alguns cutucões e viradas, o mesmo se abre.

_ Soldados idiotas, nem revistam os prisioneiros antes de colocá-los nas celas. – comenta guardando novamente o arame.

Saindo porta a fora, olha para os lados, se certificando de que ninguém os observa.

_ Tá esperando o que? – e faz sinal para que Ryan o acompanhe.

_ Onde aprendeu a fazer isso? – e deixa a cela.

_ A vida me ensinou. Rápido, não temos tempo, por aqui.

_ Pra onde estamos indo?

_ Resgatar os outros.

Impressionado com a atitude do desconhecido, Ryan apenas o segue.

As paredes surradas, demonstram o estado do cativeiro. E somente algumas tochas presas às paredes iluminam o caminho.

_ Hey, como se chama? – sussurra o rapaz.

_ Ryan.

_ Ryan, eu me chamo Dollenc. Preciso de um favor.

_ O que quer que eu faça, Dollenc?

_ Preciso que vigie aqui e me avise se perceber qualquer movimentação. Pode fazer isso, Ryan? – e retira da parede uma das tochas.

_ Acho que sim.

_ Ótimo, vou entrar e você fica de olho nas passagens, certo? – e abre a porta.

_ Certo… Mas se vir alguém, como vou avisá-lo?

Contudo, Dollenc já havia adentrado a porta e sem resposta, Ryan se preocupa em vigiar o local para que não sejam descobertos.

Dollenc com a tocha, ilumina o que parece ser uma série de celas enferrujadas.

Alguns cochichos são ouvidos e ao observar novamente, percebe que há vários jovens presos e com medo.

_ Vocês estão bem? – pergunta ele, ao observar suas faces aflitas.

Nenhuma voz é ouvida em resposta à pergunta.

_ Tudo bem, eu vim tirá-los daqui – e coloca a tocha num dos ganchos da parede.– Não tenham medo, vamos sair logo, eu prometo.

_ E os soldados? – pergunta um garoto, ainda desconfiado.

_ Eles estão distraídos. Um rapaz que veio comigo está vigiando e irá avisar se eles voltarem.

Retirando do bolso a ferramenta de fuga, se apressa em abrir uma das celas.

_ Só mais um pouco e… Consegui! – diz Dollenc retirando o cadeado aberto.

Ao perceberem que suas palavras não são vagas, um verdadeiro tumulto se inicia, na pressa pela liberdade.

_ Pessoal calma, não façam barulho – e se dirige ao próximo cadeado.

_ Obrigada – agradece uma das jovens ao se ver livre.

Ao receber um abraço da bela cativa, Dollenc abre um sorriso e com as bochechas coradas, prossegue o trabalho, ainda que meio desajeitado.

Enquanto isso, Ryan vigia as passagens e ouvindo passos entra em desespero.

_ Droga! E agora o que eu faço? – sussurra a si próprio.

Os passos cada vez mais próximos, o pressionam a tomar qualquer atitude.

Primeiro, pensa em investir contra eles na esperança de atordoá-los, como fizera antes de ser capturado. Porém certamente o barulho atrairia mais soldados.

_ O que eu faço? O que eu faço? – e observa as sombras que já aparecem na passagem a sua frente.

Rapidamente adentra a porta  e fechando-a, percebe que todos os olhares se voltam em sua direção.

_ O que está fazendo aqui? Eu não lhe pedi que fica-se vigiando? – pergunta Dollenc ao vê-lo ali.

_ É que eles estão… – e faz sinais com a mão.

_ Estão o que? Desembucha! – e coloca o arame em mais um cadeado.

_ Eles estão vindo! – responde ele nervoso.

A confusão se arma e as varias vozes se tumultuam em desespero.

_ Pessoal calma, sem pânico – pede ele aos aflitos cativos.

_ O que vamos fazer? – pergunta uma das vozes.

_ Eu não quero morrer. – diz uma garota aos soluços.

_ Fiquem quietos. Deixem-me pensar por um instante.

_ Dollenc… Estamos sem tempo – alerta Ryan espiando pela fresta da porta.

_ Já sei, todo mundo em silêncio e apaguem a luz.

Instantes depois, a porta se abre e dois soldados surgem.

_ Que escuridão é essa? – pergunta um deles.

_ Vou pegar uma tocha.

Sozinho, o soldado anda desconfiado pela escuridão.

_ Hey, seus ratos! Por que estão tão quietos, digam alguma coisa – ordena o soldado.

_ Boa noite… – diz uma voz às suas costas.

Com uma tocha apagada, Dollenc desmaia o surpreso soldado e pega a chave da saída.

Pouco tempo depois, o outro, adentra o local com uma tocha em mãos.

_ Ouvi um barulho, tudo bem Paul?

O silêncio no local o faz suspeitar da situação.

_ Paul?

_ Boa noite… – repete a voz.

Num reflexo rápido, ele se vira e agarra a arma, antes que possa atingi-lo.

_ Boa noite – responde ele sorrindo.

Dollenc surpreso fica sem qualquer reação.

_ Então rapaz, o que houve com o Paul? Diga-me, antes que eu te deixe em pedaços.

Entretanto, um dos cadeados o atinge na cabeça e atordoado, nada pode fazer contra a segunda tentativa de Dollenc.

_ Bela jogada – cumprimenta ele ao ver Ryan se aproximando.

_ Que nada.

_ A essa altura já devem estar vindo, é melhor irmos logo.

_ Certo – concorda Ryan.

Novamente o som de passos invade os ouvidos, porém dessa vez em maior quantidade.

_ Dollenc, Rápido! – adverte Ryan.

Os vários cativos começam a perder a calma e Dollenc nervoso, tenta ao máximo abrir a ultima das celas.

A pressão imposta sobre Dollenc, o faz perder a calma e num estalo, o arame se quebra no interior do cadeado.

_ Essa não! – exclama ele.

_ Dollenc! – adverte novamente.

_ Escute Ryan, leve todos pra fora.  Vou terminar essa ultima cela e logo te alcanço. – e lhe entrega a chave da saída.

_ Tudo bem. Pessoal, venham comigo.

Um a um, eles percorrem a outra passagem e com a chave Ryan abre o portão, enquanto Dollenc tenta desesperadamente libertar a ultima refém.

_ Se ficar aqui, ambos morreremos. Deixe-me e salve sua vida. – pede a jovem desmotivada.

_ Não fale isso, ninguém morre comigo por perto. – e com toda a força puxa o cadeado.

Os soldados chegam e vendo a cena, retiram as espadas das bainhas.

_ Rápido! Vocês três, peguem os fugitivos, enquanto eu cuido deste aqui. – ordena o capitão.

Os três se vão e Dollenc desarmado observa a afiada lâmina.

_ Sabe o que eu faço com encrenqueiros como você, rapaz? – pergunta ele se aproximando.

_ Os liberta? – responde Dollenc ironicamente.

Ao olhar para o chão, percebe que a espada de um dos soldados abatidos ficara ali.

_ Não, eu lhe arranco os olhos, para que nunca mais me cause problemas.

_ É mesmo? – e pula ao chão.

Ao perceber as intenções do rapaz, o capitão sem hesitação disfere um golpe, entretanto, é bloqueado pelo mesmo que conseguira apanhar do chão a espada.

Ryan ao ver que até o ultimo dos prisioneiros se fora, resolve voltar e ajudar o corajoso companheiro. Mas no meio do caminho se depara com os três soldados.

_ Diga-me, onde estão os outros? – pergunta um deles.

Porém, Ryan apenas permanece imóvel a encara-los.

_ Então não vai cooperar, hein?  Pois bem, vai se arrepender de sua escolha. – e investe com a espada.

Ryan retira da parede uma tocha e com a mesma contra-ataca.

Vendo a guarda baixa do oponente, o derruba com uma pancada nas pernas.

O soldado como se fosse uma folha de papel, vira uma cambalhota e posteriormente aterrissa no chão imundo.

_ Ora seu… – brada um dos outros dois, ao ver o companheiro estirado.

Se sentindo mais confiante, Ryan ataca os outros dois.

Ambos investem furiosos contra o rapaz, contudo, Ryan de alguma forma inacreditável consegue se esquivar dos golpes.

Se sente um pouco mais rápido e sem duvida mais forte. A mão enfaixada lateja novamente.

Numa pancada, um deles é lançado à parede e a tocha se quebra ao meio com o impacto.

Já de mãos vazias, ele aplica um gancho no outro, o qual cai atordoado ao chão.

Assustado com a força do rapaz, o soldado corre ainda que meio descoordenado e logo desaparece pela passagem.

As espadas em conflito, tendem pra um lado e pro outro.

_ Tenho que admitir. Você tem fibra rapaz. – elogia o capitão.

_ Você também não é dos maus. – debocha Dollenc.

Os dois se encaram em meio à pressão da disputa.

_ Todavia, eu sou mais forte. – brada ele aplicando mais força.

Sentindo que está perdendo, Dollenc ajoelha ao chão e impondo tudo o que tem, tenta mudar a situação da batalha.

_ Desista rapaz, prometo faze-lo breve e indolor. – e sorri vitorioso.

_ Eu nunca… Desisto – responde o rapaz encarando-o.

Retirando a espada da disputa, Dollenc rola para o lado e com uma rasteira derruba o oponente.

Chutando a arma do inimigo, levanta e aponta a lamina no pescoço do capitão, que permanece imóvel ao chão.

_ O que está esperando? Vamos, me mate!

Dollenc vira a espada e com o cabo, desmaia o oponente.

_ Tudo bem? – pergunta Ryan.

_ Tudo sim.

_ É melhor irmos, um soldado fugiu e logo trará reforços.

_ Sim, mas ela ainda esta presa e eu não sei mais o que fazer.

_ Deixem-me. Não percebem que não tem jeito.

_ Eu não vou sem você. – diz Dollenc decidido.

Ryan se aproxima da cela e pegando o cadeado, puxa-o.

_ Eu já tentei, mas essa porcaria é muito forte.

Puxando novamente, o cadeado se quebra e a cela se abre para o espanto de Dollenc.

_ Obrigada – diz ela agradecida a ambos.

_ Depois do tanto de força que você fez, ele devia estar frouxo. – explica Ryan.

_ Mas… Deve ser. Vamos, rápido.

Deixando o cativeiro, os três se veem livres.

_ Agradeço mais uma vez, agora posso voltar pra minha família. – diz ela sorrindo.

_ Sabe o caminho? – pergunta Dollenc.

_ Sim, eu moro bem perto daqui, seguindo em frente. – e aponta a direção

_ Tome cuidado.

_ Pode deixar. – e o abraça.

_ Boa viagem. – fala Ryan a ela.

_ Obrigada, digo o mesmo.

Despedindo-se, ela corre sorrindo, enquanto ambos a fitam cada vez mais distante.

_ Bem e você Dollenc?

_ Eu o que?

_ Vai voltar pra sua família?

_ Não, eu… Não tenho família.

_ Nem pai? Nem mãe? Nem tios?

_ Nada. Bem, é hora de ir. – diz ele caminhando.

_ E pra onde vai?

_ Pra onde o vento me levar. – e olha o horizonte.

_ Cara, você é muito estranho. – comenta Ryan rindo.

_ Olha quem fala. Você nem sabe pra onde ir.

_ Bem, eu…

_ Hahaha, o sujo falando do mal lavado.

_ Sem graça.

_ Nossa, foi uma aventura e tanto.

_ É o que eu diga.

_ Bem, como eu já disse, é hora de ir. – e caminha pela estrada.

Ryan pelo contrario, permanece parado e em silêncio o observa caminhar.

_ Tá esperando o que? Anda logo! – diz Dollenc olhando pra trás.

Seu coração lhe diz que essa é a direção que deve seguir. E de que talvez, no fim dessa estrada, possa estar o caminho para casa…

Continua…

Capítulo 2: As colônias de Ariggon…


Os olhos se abrem e avistam um teto diferente do que estão acostumados, não há lâmpadas, mas sim, uma vela gasta pelo meio. Aos poucos recupera os sentidos e criando forças, levanta-se da cama.

Por onde olha, nada reconhece, nada é familiar.

A maioria dos objetos parecem velhos e feitos de madeira ou metal bruto. Será um sonho? Será que está dormindo em casa ou mesmo no hospital?

Ryan tem muitas perguntas sem resposta. E observando que à sua frente há um balde com água, o mesmo lava o rosto.

Ao fazer isso, percebe que há algo diferente em sua mão direita. O estranho anel permanece ali, dando prova de que talvez não seja um sonho, de que talvez não esteja dormindo.

_ Está melhor? – pergunta uma senhora lhe oferecendo um pano.

Sem saber o quê e como responder á pergunta, apenas sinaliza que sim com a cabeça.

As rugas tracejam o rosto da mulher e demonstram serem marcas de uma vida difícil.

_ Está com fome?

_ Não, obrigado…

Pegando o pano das mãos da mulher, enxuga o rosto, devolve-o e criando coragem, resolve fazer algumas perguntas.

_ Com licença, mas poderia me dizer onde estou?

_ Meu marido e eu te encontramos caído em frente à nossa casa e te trouxemos pra dentro.

_ E onde exatamente é aqui?

_ Uma das colônias de Ariggon.

_ Ariggon?

Num rangido a porta se abre e o marido adentra a casa. Sério, apenas coloca de lado o que parece ser o almoço do dia e com um lenço tirado do bolso, limpa a faca ensanguentada.

_ Já está de pé rapaz, dormiu bem? – pergunta ele sentando numa cadeira, com a faca ainda em mãos.

_ Sim… Sim senhor – responder Ryan temeroso.

_ Algum problema, você está meio apreensivo.

_ Problema? Não tenho nenhum senhor.

Os dois se entre olham e ficam imaginando o que estará se passando na cabeça do outro.

_ Querido, está assustando o garoto – interrompe-o, pondo assim, um fim ao silêncio.

_ E de onde você é? – diz ele pondo a faca limpa sobre a mesa.

Ryan se sentindo um pouco mais seguro começa a falar normalmente.

_ Sou de Hopewell, Virgínia, conhece?

_ Nunca ouvi falar, fica muito longe daqui?

_ No momento, eu não sei muito mais do que o senhor – explica Ryan.

_ Entendo e como veio parar aqui?

_ Também não tenho a mínima ideia…

_ Pelo menos sabe seu nome?

_ Sim, me chamo Ryan Aston.

_ Ryan, certo? Pra onde vai agora?

O rapaz permanece em silêncio, dando a certeza de que a mesma resposta das duas perguntas anteriores, sairia de seus lábios.

_ Não sabe como chegou aqui, muito menos como voltar. Meu jovem, você está mesmo com um problema.

_ Bem, só posso agradecer por me acolherem aqui. Obrigado por tudo e até um dia quem sabe. – diz ele se despedindo e caminhando até a porta.

Marido e mulher se olham, como se conversassem através dos mesmo e comovidos tomam uma decisão.

_ Não temos muito a oferecer e nossa casa é humilde, mas se quiser, pode ficar aqui até saber ao certo, que rumo tomar – diz a simpática senhora com um sorriso.

_ Mas eu não vou incomodar a rotina de vocês? – reluta Ryan.

_ Então está decidido, pode ficar o tempo que precisar, mas terá de me ajudar a cuidar das coisas por aqui. – confirma o senhor encerrando o assunto.

Sem saber como agradecer à generosidade do casal, Ryan apenas sorri, mas por dentro seu coração se aperta cada vez mais, tanto de receio por estar neste lugar onde nada conhece, quanto de saudades da sua casa e das pessoas com quem convivia.

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O sol já brilha e Ryan apenas observa da janela a paisagem tão diferente da que está acostumado a admirar do seu quarto. Sem sombra de duvida, a visão é bela e apesar de simples, seus ares transmitem uma sensação totalmente nova.

_ Por que não sai um pouco, talvez assim reconheça algo que te lembre de onde você veio. – sugere a mulher.

_ Tem razão, não vou achar nada ficando aqui parado.

_ Meu marido Bernard está cuidando das plantações, aproveite e conheça o local.

_ Tudo bem, até mais… – e deixa a modesta casa.

_ Tome cuidado!

A sensação que Ryan teve naquele instante, foi uma mistura de medo pelo que nunca virá antes, com a curiosidade de conhecer aquele estranho lugar e aos poucos esse mesmo medo perdia espaço e a cada andar a coragem crescia em seu peito. Nunca sentirá nada parecido antes.

A propriedade, ainda que pequena, tinha lá seus encantos. A folhagem macia na parte superior e áspera por baixo lhe tocava as mãos, que dedilhavam uma a uma as folhas da mesma.

Cachos de pequenas sementes se formavam desde as copas das árvores até o chão.

Os frutos se pareciam com a maçã, sua fruta predileta, porém, com pequenas pintas em preto e branco. E por fim, uma espécie de cipó preso da sua superfície até os galhos, tornando a planta ainda mais estranha.

_ Logo estarão maduras e prontas para serem colhidas. – comenta uma voz por de trás de Ryan.

_ Ah é o senhor, senhor Bernard… Qual o nome dessa fruta?

_ Se chama Axpria. Por quê? Não existem onde você mora?

_ Não, mas o que se faz com essas… Axprias?

_ Bem além de serem ótimas para se comer, quando cozidas, liberam um tipo de secreção que serve para aliviar a dor.

_ Tipo um analgésico?

_ Anegic… O que?

_ São uns comprimidos que minha mãe vive tomando.

Ryan percebe que suas explicações de nada esclarecem o confuso senhor, que apenas coça os cabelos grisalhos.

_ Deixa pra lá… É coisa de onde eu venho. – explica Ryan.

_ Ah, o lugar que você nem mesmo sabe onde fica.

_ Isso mesmo. Hey, já aguou estas aqui? – e aponta as curiosas plantas.

_ Eu vou fazer isso agora. – e mostra os baldes vazios.

_ Deixa que eu faça isso pro senhor. – e pega os baldes.

_ Obrigado meu jovem.

_ De nada… Bem, onde fica a torneira?

_ Torneira? O que é isso?

_ Torneira, de onde sai agua. Não tem?

_ Não que eu saiba.

_ E mangueira tem?

_ Mang… O que? – diz o velho coçando a cabeça outra vez.

_ De onde o senhor pega a água?

_ Do poço oras. – e aponta a velha estrutura no meio da plantação.

O velho poço feito de tijolos possuía uma corda presa a um balde, o qual se usava para retirar água.

Aos poucos, Ryan pegava o jeito e enchendo os baldes, molhava as plantas.

As horas se passavam como poucos minutos e Bernard admirado com a energia do rapaz, apenas o observava, indo e voltando com baldes e mais baldes d’água.

_ Tem certeza de que nunca tinha feito isso antes?

_ Nunca, o máximo que eu fazia era regar o jardim de casa com a mangueira.

_ Essa tal mangueira de novo… Mas o que vocês costumam cultivar lá.

_ Bem minha mãe já tentou fazer uma horta, mas como estava sempre ocupada, não deu muito certo. Preferimos comprar o que precisamos na quitanda mesmo.

_ Quitanda?

_ É uma espécie de mercado de frutas, verduras, etc.

_ Ah, uma feira?

_ Isso mesmo.

Papo ia, papo vinha e ao perceber, Ryan havia terminado tudo. Porém não se sentia cansado, pelo contrario, estava mais bem disposto do que nunca.

Suas mãos molhadas pareciam pegar fogo, especialmente, a qual se encontrava o anel.

O objeto brilhava mais do que o normal e Ryan sentindo como se fosse uma parte de si próprio, apenas o admirava.

_ O que está fazendo com isso! Tire-o agora mesmo! – exclama o homem, ao identifica-lo no dedo do jovem.

_ Hã? O que o senhor disse?

_ Você deve tira-lo agora mesmo. Se um soldado lhe pega usando isso… Vai estar em sérios apuros .

_ Mas por quê?

_ É terminantemente proibido o uso de quaisquer acessórios nas mãos.

_ É uma lei?

_ Sim, e quem não a cumpre passa o resto de seus dias na prisão. E essa é a menor das punições.

_ Só por um anel? Não acha isso injusto?

_ Somos uma colônia. Obedecemos às ordens vindas de Ariggon…

_Mas por que não se reúnem e lutam contra essa situação?

_ Como você acha que nos tornamos colônia? Nós lutamos, persistimos, mas no final, Ariggon derrubou toda e qualquer esperança deste e de muitos outros lugares.

Sua face antes alegre, agora muda em meio a tristeza e os olhos molhados retratam a dor e o sofrimento que estavam ocultos, até este momento.

_ Somos obrigados a pagar impostos absurdos, a viver com leis e mais leis sem cabimento… E por fim… Perder nossos maiores tesouros.

_ O que houve?

_ De tempos em tempos, os soldados de Ariggon passam pelos lugares escolhendo garotos e garotas da sua idade, para servir aos seus interesses.

Ryan permanece em silencio, apenas ouvindo o desabafo de Bernard e tentando imaginar sua dor.

_ Há cerca de 20 anos, vieram aqui e vendo meu filho, eles…

_ Seu filho? Eles o levarão?

_ Sim, por mais que minha esposa chora-se e eu implora-se, eles sem piedade o tirarão de nós.

_ Qual o nome dele?

_ Alliel… Tinha 15 anos – diz Bernard inconformado.

Ao voltar os olhos pra Ryan, um pequeno sorriso se forma.

_ Ele se parecia com você, no olhar principalmente… Mas eu tenho esperança de um dia revê-lo.

Comovido pela história, Ryan segura em seu ombro, na esperança de dividir a dor.

O Trotar de cavalos anuncia que alguém se aproxima e Bernard se adianta em ver os visitantes.

_ Não pode ser, mas já? – sussurra ele com o olhar aflito.

_ Quem é?

_ São eles. Ouça, vá e avise Clara minha esposa de que eles estão aqui e fique com ela.

_ Mas e você?

_ Eles só vieram buscar o imposto. Vá, eu ficarei bem. E retire esse anel! – alerta ele.

Atendendo ao que Bernard lhe pedira, sai em direção à casa.

O barulho dos cavalos aumenta e logo quatro soldados adentram a plantação.

Suas faces cobertas pelos capacetes, não permitem que o velho veja suas feições.

_ Olá, no que posso servi-los? – pergunta Bernard.

_ Não se faça de tolo velho, sabe muito bem o que viemos fazer aqui – responde sem paciência um dos quatro.

Sem saber como explicar a situação aos soldados, Bernard apenas permanece de cabeça baixa.

_ Deixe de enrolação e pague seu tributo colono!

_ Não posso… – sussurra aflito o proprietário.

_ Como? Não entendi muito bem – zomba ele aos companheiros.

As risadas são um sinal de que os corações dos cobradores ,não guardam um pingo sequer de piedade.

_ Não tenho como pagar – repete ele ainda em baixo tom.

_ Ouviram isso? Ele não tem como pagar.

_ As frutas não estão prontas para serem colhidas, por isso ainda não tenho o dinheiro – explica ele arrancando uma fruta e lhe entregando.

O impiedoso soldado, ao pegar o fruto das mãos do amedrontado senhor, o arremessa ao chão e posteriormente, esmaga-o com o pé.

_ Vocês devem entender que se adiantaram dessa vez e assim não tive… – mas é interrompido.

_ Basta! Além de não cumprir seu dever com Ariggon, ainda insinua que a culpa é nossa? – questiona furioso, retirando a espada da bainha.

_ Não quis ofende-los, peço perdão – reluta Bernard temeroso.

Enquanto isso, Ryan ao chegar à casa, explica tudo a Clara esposa de Bernard.

_ Ainda não colhemos nada, como podem querer que paguemos tributo?

_ O que acontece se não pagarem esse tal tributo? – pergunta Ryan, já cogitando as piores hipóteses.

Ela preocupada, apenas permanece pensativa, enquanto Ryan a observa.

_ Senhora Clara, o que acontece?

_ Só podemos esperar que Bernard os convença a voltar outro dia.

Ryan se lembrando do que o mesmo lhe dissera mais cedo, tenta retirar o anel do dedo, entretanto, sem sucesso.

_ Hã? Por que não quer sair! – e puxa com força o artefato.

De nada adiantava as tentativas, de alguma forma o anel se colara ao seu dedo e por mais que puxa-se, continuava ali.

_ Senhora Clara, tem algo pegando fogo!

_ Oh meu Deus! Bernard! – grita ela em desespero.

_ Fique aqui! Eu vou até lá – e acalma a aflita mulher.

Ao ver o pano sobre a mesa, o pega e amarra-o na mão onde se localiza o anel.

Saindo em dispara, corre por entre as plantações, guiando-se apenas pela fumaça que invade os céus.

_ Senhor Bernard! – exclama ao vê-lo caído.

A fumaça densa dificulta a respiração de ambos e Bernard tosse incessantemente.

_ Venha, tenho que te tirar desse lugar – e puxa o asfixiado senhor.

_ Onde está Clara? – pergunta ele, se sentindo um pouco melhor.

_ Deixei-a em casa, não se preocupe. – responde Ryan.

O trotar dos cavalos parecem vir de diversas direções e aumentam cada vez mais.

_ Rápido, fuja! Eles vão queimar tudo aqui!

As tochas acesas circulam pela plantação, que aos poucos se consomem em meio as chamas.

_ Todo o meu trabalho… Malditos… – e observa inconformado à cena.

_ Hey velhote, de quem é a culpa agora? – zomba um dos soldados ao encontrá-los.

Ryan o fita com ódio, enquanto pensa numa maneira de tirar Bernard dali.

_ Não sabia que tinha um filho. Bem, já conhece a lei. Você virá comigo rapaz – e desce do cavalo.

_ Fuja garoto! – suplica Bernard.

_ Nem pense nisso ou vai se arrepender – ameaça o soldado.

As vozes de ambos se perdem antes de chegarem aos ouvidos de Ryan, que decidido corre em direção ao soldado.

_ Isso mesmo, é assim que eu gosto – diz ele tirando a espada.

_ Não! Pare Ryan! – exclama Bernard, já prevendo o fim trágico.

Ryan cego pela fúria, investe com toda a força de seu corpo e sem sentir ao menos o vento bater em seu rosto, ataca o soldado de mãos vazias.

A armadura antes em bom estado, agora range amassada, enquanto o soldado cai inconsciente ao chão e Ryan voltando a si, percebe o que acabara de fazer.

Suas mãos não se machucaram e não há dor em seus braços. A ardência parece ter voltado a mão direita e ainda sem acreditar no que fizera, retoma o fôlego.

_ Como… Você… – diz Bernard sem acreditar no que acabara de ver.

_ Eu não sei… Eu só… – mas algo lhe atinge a nuca, o levando a desmaiar ao solo .

O que parece ser o líder dos quatro, guarda sua espada e voltando-se para ao outro o acorda.

_ Levanta! – e o chuta.

_ O que houve?

_ O garoto ali te derrubou – e ri incessantemente.

Os outros dois se aproximam, descem dos cavalos e observam à cena.

_ Maldito! Vai pagar com a vida pelo que me fez! – e pega a espada do chão.

Pondo-a sobre o pescoço de Ryan, se prepara para dar o golpe fatal.

_ Espere… – interrompe o líder.

_ O que foi? – resmunga impaciente.

_ Pode-se ver que o rapaz é bem forte, seria um desperdício matá-lo. Vamos levá-lo para trabalhar nas minas.

_ Mas… Mas… Tudo bem – concorda, ainda que um pouco contrariado.

_ Deixem-no em paz! – exclama Bernard.

_ Silêncio! Pela coragem do jovem vamos perdoar sua ofensa colono. Agora vá trabalhar!

Bernard tira a faca e receoso, apenas permanece observando.

_ Não faça eu me arrepender de poupar sua inútil vida. – ameaça o impiedoso líder.

Incapaz de fazer nada para salvá-lo, Bernard os vê levarem Ryan para longe, assim como a seu filho Alliel tempos atrás…

Continua…

Capítulo 1: Um lugar chamado Casdia

O sol da manhã irradia os céus, enquanto gotas de orvalho escorregam pelas folhas da vegetação e ao se desprenderem liberam frescor ao ar.

Os pássaros cantam alegremente, anunciando o nascer de um novo dia e com os olhos fechados Ryan apenas deixa seus pensamentos vagarem sem rumo pelo silêncio no quarto.

_Ryan! – Exclama sua mãe da cozinha.

Sem dar a mera importância ao chamado, mantêm seu olhar fixo ao teto e sua mente continua por ai, bem longe. Ora pensando em seu pai que não vê a meses e ora imaginando o que virá agora que já possui seus 16 anos.

_Ryan! – Persiste a voz.

Finalmente resolve levantar, vai até o banheiro, escova os dentes e molha o rosto.  Ao olhar para o espelho se sente estranho. Não fisicamente, mas sim em seu interior.

Será o sono que ainda persiste em ficar? Será a ansiedade de uma nova fase? Ou talvez as novas responsabilidades que certamente viram?

Deixando as perguntas de lado, troca de roupa e desce até a cozinha.

_ Enfim desceu, já estava começando a achar que ficaria por lá – diz sua mãe colocando o prato em sua frente com algumas torradas.

_ Bom dia, é que eu estava terminando um trabalho de história.

_ Em pleno sábado? Muito bem, quem é você e o que fez com meu filho? – Brinca ela lhe dando um beijo.- _ Feliz Aniversário!

_ Valeu. E o pai já ligou?

_ Ainda não, mas você sabe como ele é, sempre deixando tudo pra ultima hora.

Ryan apenas observa a janela enquanto morde uma das torradas com geleia e voltando-se para a mãe, percebe que a mesma o fita em silêncio.

_ O que foi? – Pergunta curioso.

_ Não é nada, só estou admirando o meu filho. Um filho lindo e muito prestativo, que vai fazer as tarefas que estão aqui. – e lhe entrega uma folha.

_ Tudo isso?

_ Tenho certeza de que pode dar conta, afinal, já é um homem. – e pega a bolsa.

_ Aonde vai?

_ Ao hospital, vou ter de trabalhar no período diurno essa semana, Michael pegou conjuntivite.

_ Entendi… E quando volta?

_ No fim da tarde, mas acho que até lá sua surpresa já devera ter chegado.

_ Opa, que surpresa? – e já demonstra ansiedade.

_ Eu e minha grande boca! Bem tenho que ir…

_ Pode ir parando ai mesmo dona Helena Aston.

_ Quantas vezes vou ter de repetir pra não me chamar desse modo, hein garoto? Vejamos… Só posso lhe dizer que é algo ou “alguém”, que você queria muito que estivesse aqui.

Ryan abre um sorriso, ao cogitar a possibilidade de que seja seu pai, o qual finalmente virá vê-lo.

_ Nossa olha a hora! Preciso ir, te amo filho. – e o beija.

Porém ele continua ali, apenas imaginando se sua hipótese está correta ou não, enquanto sua mãe entra no carro e sai em disparada.

Por alguns instantes permanece desse modo, até perceber que há muito trabalho a ser feito. Adianta-se para terminar o café da manha, coloca o prato na pia e começa as tarefas.

Com o cortador de grama se empenha em terminar a primeira das tarefas, enquanto o sol ainda fraco bate em seus olhos castanhos claros.

O mover do aparelho libera aos poucos pedaços da folhagem, que se dispersa com as brisas que vem e vão a todo o instante pelo jardim.

_ Bom dia, Ryan!- cumprimenta uma voz já familiar.

_ Oi Sarah – e desliga o cortador.

Desde os 7 anos Sarah e Ryan são melhores amigos, juntamente com Toddy que se mudara para cá em Hopewell, há cerca de 2 anos.

_ Pegando no pesado logo cedo?

_ É, a dona Helena conseguiu se superar dessa vez.

_ E por falar na sua mãe, onde ela está?

_ Foi para o trabalho no hospital, parece que o outro médico pegou conjuntivite.

_ O bonitão do doutor Michael? Ai que maldade – e da um estranho suspiro.

_Eu hein, o que ele tem demais?

_ Só pode estar brincando né? Além de ser inteligente, elegante, ainda é o maior gato! Se eu fosse a Helena, já teria cravado as garras nele.

_ Hum… Mas o que você queria com ela?

_ Ah é! Minha mãe me pediu pra que trouxesse o produto que a Helena encomendou. – e retira da bicicleta o pacote.

_ Tudo bem, eu entrego quando ela voltar. – diz Ryan pegando-o.

_ Ah! Mais uma coisa, esse aqui é pra você.

_ Pra mim? Mas eu não encomendei nada.

_ Não seu bobo, esse é o meu presente de aniversário.

_ Que isso Sarah, não precisava me dar nada poxa – e agradece com um abraço à amiga.

_ Espero que goste…

Ryan abre o pequeno pacote e retira de lá um pingente.

_ Abra-o – alerta a amiga.

O pingente em formato de guitarra traz em seu interior uma foto dos três amigos, tirada num piquenique há cerca de 6 meses.

_ Maneiro, gostei muito Sarah – diz ele com um sorriso.

_ Pelo menos vai ter algo pra por nessa corrente que você nunca tira do pescoço. Agora tenho que ir.

_ Certo, até mais então.

Sarah volta a bicicleta e despedindo-se pedala rua afora.

Ryan já trata de colocar de uma vez o presente, pois do jeito que é distraído, com certeza o perderia na primeira oportunidade.

O dia passa e o sol se esconde atrás das nuvens escuras e pesadas.

_ Parece que essa chuva vai ser forte – comenta Helena fechando a janela da cozinha.

Ryan debruçado sobre a mesa que com tanto gosto preparou, apenas observa o terceiro prato a sua frente. Enquanto Helena ao perceber o olhar de decepção do filho, resolve tentar animá-lo.

_ Nossa! O que temos aqui! – e retira algo da sacola.

Ryan não demonstra sequer um pingo de interesse e apenas continua debruçado.

_ Será? Mas não pode ser! Um bolo de brigadeiro coberto de raspas de chocolate e com recheio de… Adivinha, doce de leite! Hummmm… – e exibe a sobremesa na frente de Ryan.

_ Não quero, obrigado… – e vira para o lado.

_ O que? Mas é sua sobremesa favorita.

Ao se dar conta de que nenhum tipo de bolo poderia suprir a necessidade que seu filho tinha naquele momento, resolve se sentar e assim consolá-lo.

_ Olha não se preocupe, ele vai chegar. Só está um pouco atrasado.

_ Pra que continuar se enganando mãe, se a gente sabe que ele não vem! – e joga os talheres no chão.

_ Epa, epa. Escute aqui rapaz, eu sei que você está nervoso, mas isso não lhe da o direito de se zangar comigo também, ouviu?

_ Me desculpa… É que eu tinha esperança que dessa vez ele viria.

_ E ele virá Ryan. Agora pegue esses talheres do chão e vá tomar um banho, enquanto eu termino o jantar.

Sem dizer mais uma palavra sequer, apanha os objetos, coloca-os novamente sobre a mesa e sobe as escadas.

Helena olha o frango que assa no forno e prova o espaguete, para testar o sal.

O banho parece esfriar a cabeça de Ryan, que pondo os pensamentos no lugar, procura uma roupa adequada.

Após estar pronto fecha a janela do quarto, para impedir a entrada da chuva que se torna mais forte a cada instante.

O telefone toca e Helena se adianta em atendê-lo.

_ Alo? Boa noite Rick, posso saber onde você está? – e tenta se manter calma.

_ Boa noite Helena, eu estou aqui na Florida.

_ Como assim na Florida, por acaso se esqueceu de que dia é hoje?

_ Claro que não.

_ Então por que não está aqui ainda, hein?

_ Bem, é que eu tenho uma tese pra entregar na segunda de manhã e… – mas Helena o interrompe.

_ Tese? Então você não vai dar as caras porque tem uma porcaria de tese pra fazer? – exclama ela, perdendo de vez a paciência.

_ É o meu trabalho, achei que pelo menos você entenderia a minha situação…

_ Rick, eu não tenho que entender nada, guarde suas desculpas pro seu filho.

_ Nosso filho, esqueceu? E é por isso que preciso que converse com ele e explique a situação.

_ Eu? Já estou cansada de ficar acobertando suas mancadas. Poxa, é o aniversário dele Rick… – e respira fundo para aliviar um pouco do estresse.

_ Olha, me escute, eu entrego a tese na segunda e na terça estarei ai.

Helena fica em silêncio, pensa por alguns instantes e por fim toma a decisão.

_ Terça? – pergunta ela concordando.

_ Sim, eu prometo que na terça logo pela manhã, estarei ai e levarei meu presente.

_ Suas promessas nunca valeram muito Rick. – desabafa ela, ao olhar para a aliança que ainda guarda em seu dedo.

_ Agora tenho que desligar. Diga pra ele que eu desejo um feliz aniversário e sinto… – mas Helena já sabendo o final da frase, encerra a ligação.

Mais uma vez respira fundo, pensa na desculpa da vez e vira. Porém, ao fazer isso, se depara com o olhar de decepção e ao mesmo tempo ira do filho.

_ Oi querido, nem ouvi você chegando… Precisamos conversar. – e puxa uma cadeira.

No entanto, Ryan cego pela forte emoção, corre para fora em meio a tempestade.

Helena o chama varias e varias vezes, mas seu filho não esta mais lá.

A chuva forte e densa diminui ainda mais a visão de Ryan, que corre sem rumo pelas ruas.

Depois de pegar a chave do carro, Helena sai em busca do filho amado.

O vento sopra, as arvores chacoalham em meio à tormenta e os raios rasgam o céu, anunciando a vinda dos trovões.

Ryan confuso, apenas procura um refugio da chuva, para por os pensamentos em ordem.

O telefone chama, todavia, sem resposta. Helena dirige desesperada, sem saber ou ver o que está a um palmo de sua frente. Seu coração de mãe avisa que o pior pode acontecer.

_ Vamos, atende! Atende Ryan! – diz ela ligando novamente.

Vendo que o esforço é inútil, decidi ligar para a polícia e explicar o ocorrido.

O rapaz desorientado e exausto pela corrida, se refugia em uma construção. As claridades dos raios iluminam parcialmente o local, enquanto ele anda por entre as estruturas.

A fúria, a tristeza e o frio se misturam, anestesiando toda e qualquer percepção.

Num passo em falso, sente seus pés perderem a firmeza e seu corpo aterrissar em meio a lama.

Ao olhar para cima, percebe que o céu está mais distante e o chão menos estável.

Finalmente se toca de que caiu em um dos buracos da obra. O celular molhado já não tem utilidade.

_ Funciona! Anda! – e tenta incessantemente ligá-lo.

A lama que cobre suas mãos, facilita que o aparelho escorregue por entre seus dedos e vá para o fundo do buraco.

_ Essa não, mas que droga! – e vasculha o lugar.

Ryan fica cada vez mais desesperado, enquanto as águas da chuva escoam para dentro da vala, juntamente com a terra da construção.

_ Socorro! Alguém! – suplica amedrontado.

Sente ter agarrado algo do fundo da lama. Será seu celular? Ao levantar as mãos, percebe que segura uma caixa.

Sem alternativa a não ser abri-la, apenas torce para que seja algo que lhe ajude a escapar de tal enrascada.

De dentro da mesma, retira um pequeno artefato com um brilho diferente e um formato circular.

_ Um anel? No que uma porcaria de anel pode me ajudar! – brada Ryan.

Contudo, ao voltar-se novamente para o misterioso artefato, percebe que seu brilho é diferente, nada parecido com o ouro ou a prata.

_ Por favor, me ajuda… – suplica ao objeto.

Num impulso se vê pondo o anel, sem saber ao certo o porquê, mas algo no fundo de seu inconsciente dizia que aquela era sua única chance de não morrer ali.

Poderia jurar que em alguns instantes ouvira a voz de sua mãe lhe chamando para levantar como sempre.

O barulho da chuva dá lugar ao silêncio do desconhecido. Ryan sente suas costas no chão e suas mãos tocarem as folhagens.

_ De onde ele veio? – pergunta assustada, uma voz doce.

_Você está bem meu jovem? – diz outra, só que mais grossa.

Sem conseguir ao menos distinguir os vultos que lhe falam, Ryan apenas faz uma pergunta.

_ Onde estou?

_ Ora, onde mais estaria… Está em Casdia meu jovem – responde a voz grossa, certamente de um senhor.

Sem falar, sentir ou ver mais nada, Ryan perde a consciência…

Continua…