Capítulo 4: Para as minas…

A noite já resplandece no céu, as estrelas brilham entre si e desenham diferentes formas na imensidão azul.

A temperatura amena traz uma agradável sensação de frescor e as brisas suaves fazem com que as chamas da fogueira dancem entre si em meio ao silêncio.

Sentados a sua volta, Ryan e Dollenc repousam depois de um longo dia de aventura.

_ Que dia, não acha? – pergunta Dollenc deitando-se sobre a rala vegetação.

_ É mesmo… Acho que nunca em toda a minha vida, pensei em fazer algo parecido. – comenta Ryan.

_ Foi um plano arriscado…

_ Como assim?

_ Bem, você acha mesmo que os soldados me capturaram?

_ E não foi isso?

_ Não. Eu queria que me pegassem. – responde ele sorrindo.

_ Por que faria isso? A não ser que…

_ Que eu quisesse libertar os reféns? – completa Dollenc.

_ Entendo… Foi um ótimo plano.

_ Que nada – e volta os olhos para o céu estrelado.

Por alguns instantes permanecem calados, cada qual com seus próprios pensamentos e em meio ao silêncio podem-se ouvir os estalos provocados pela queima da madeira ao fogo.

_ Hey, Dollenc.

_ Sim?

_ Foi uma atitude muito nobre da sua parte, ficar e socorrer a garota.

_ Qualquer um faria isso.

_ Eu penso que não, bem não sei se eu mesmo o faria.

_ Agora você me deixou confuso. Você fez a mesma coisa por mim, teve a oportunidade de ir e me deixar lá, mas preferiu voltar apesar disso.

_Hum? Eu fiz?

Dollenc não se contém ao ver à surpresa de Ryan e começa a rir.

_ Sim. Afinal, você foi tão valente quanto eu naquela prisão. – o elogia retomando o fôlego.

Porem seu sorriso logo se desfaz e a seriedade o toma por completo.

_ Qual o problema, você libertou aqueles jovens. Por que essa cara?

_ Por pouco tempo, logo aqueles soldados vão voltar e tira-los de suas famílias novamente. Eu só queria poder terminar com tudo isso.

_ Sei bem do que você está falando. Eu conheci um casal que estava inconformado do mesmo modo.

_ Colonos?

_ Sim, eles me acolheram quando eu precisei e agora nem sei ao certo se estão vivos.

_ E as coisas só tendem a piorar…

_ Mas e você. O que aconteceu aos seus pais?

Sem responder à pergunta, Dollenc permanece sério e quieto.

_ Me desculpa, sei que não é da minha conta. – diz Ryan ao perceber o estado do rapaz.

_ Tudo bem, eles morreram quando eu ainda era um bebe. – responde sentando-se.

_ Sinto muito…

_ Houve um incêndio e até onde sei, apenas eu sobrevivi.

_ Bem, então não tem certeza de que estão verdadeiramente mortos. Quem sabe se… – porem sua hipótese logo é interrompida.

_ Se estivessem vivos, não acha que eles teriam me procurado?

_ Talvez não soubessem que você sobreviveu e estejam sofrendo da mesma forma.

_ Não estou sofrendo, o que passou não importa mais. Como eu já te disse, ficar se lamentando não muda a situação.

Ryan resolve deixar de lado o assunto, para não irritar ainda mais o companheiro.

_ O que tem de errado com a sua mão? – pergunta Dollenc mudando de assunto.

_ Nada, é só que…

Lembrando-se da lei imposta em Ariggon, Ryan opta por omitir a verdade.

_ Eu a queimei.

_ Deve ter doído pra caramba. Posso dar uma olhada?

_ É melhor não, ainda está um pouco dolorido… Por acaso sabe onde ficam essas tais minas? – desconversa Ryan se desvencilhando das mãos de Dollenc.

_ Sei, não ficam muito longe. Por que a pergunta? – responde-o ainda que achando estranha sua reação.

_ Lembra-se do casal que eu te falei agora pouco. Bem, eles tinham um filho que foi levado aos 16 anos de idade.

_ Eles sempre fazem isso, mas há quanto tempo?

_ Cerca de 20 anos.

_ 20? É um bom tempo.

_ Eu sei, mas você me disse que os prisioneiros são levados para as minas. Talvez ele ainda esteja lá. – explica Ryan esperançoso.

_ Há uma possibilidade.

_ Eu devo isso a eles e preciso que me leve até lá. Você me ajuda?

_ Será um prazer. Mas você está fazendo aquilo novamente, sabia?

_ Fazendo o que? – pergunta Ryan sem ter a mínima idéia do que se trata.

_ Você podia esquecer essa história e estar procurando um meio de voltar pra casa, mas prefere se importar com esse rapaz que você nem conhece. – responde Dollenc.

Pensando no que acabara de ouvir, Ryan apenas observa com um sorriso o céu azul.

_ Alliel… – sussurra ele pensativo.

_ Ah to exausto, vou dormir agora. Boa noite. – e espreguiçando deita-se novamente.

_ Boa noite, Dollenc.

Ryan pelo contrario está enérgico e sem vontade alguma de descansar. Seus olhos fixos na bela paisagem refletem o brilho das estrelas.

O silêncio da noite permite a ele escutar seu próprio coração, o qual pulsa lentamente e sem pressa alguma. Nunca vivera uma aventura como essa, salvando pessoas, conhecendo histórias e enfrentando desafios.

Por alguns instantes sente que tudo está perfeito, nada precisa ser colocado ou mesmo tirado dali.

Finalmente o sono começa a incomodar seus olhos, que em resposta ficam mais pesados e acomodando-se ao lado da fogueira, relaxa e deixa que seus sonhos comecem a surgir.

Pela primeira vez desde que chegou a este lugar, Ryan não pensa em ir embora, mas sim em aproveitar sua estadia.

———————————————-//————————————————–

_ Ryan – chama a voz.

Seus olhos se abrem sonolentos e instantes depois se fecham em busca de retornar ao que estavam vendo antes do chamado.

_ Ryan, acorde.

_ Hã?

_ Já amanheceu, temos de ir – explica Dollenc.

Ainda que meio preguiçoso se levanta, coça a cabeça e observa a paisagem.

_ Hey, não me ouviu dizer que temos de ir. – alerta o rapaz.

Acostumado a se levantar e receber o café da manha fresquinho na cozinha, ele anda desanimado e cheio de fome.

_ Rápido, desse jeito só vamos chegar lá amanha.

_ Como posso andar mais rápido, se meu estômago ta vazio e eu sequer lavei o rosto?

_ Como você reclama hein. Tem um riacho aqui perto, vai poder lavar o rosto e encontrar algo pra comer.

Cerca de meia hora de caminhada depois, encontram o local que Dollenc explicara.

Ali lava o rosto e procurando pelas arvores, encontra algumas amoras que servem para acalmar um pouco sua fome.

_ Podemos ir?

_ Só preciso fazer mais uma coisa… – diz Ryan meio envergonhado.

_ Ah… E o que é? – pergunta Dollenc apressado.

_ Eu preciso, esvaziar…

_ Esvaziar, o que? – pergunta novamente sem paciência.

_ Preciso fazer xixi! – responde ele desconcertado.

_ E daí? Acha algum lugar e faz.

Provavelmente não encontraria um banheiro naquele local e escolhendo um lugar aleatório se “esvazia”.

_ Mas alguma coisa? – ironiza Dollenc sorrindo.

_ Não, podemos ir.

Por parte do caminho, Ryan pode ouvir alguns risinhos disfarçados do companheiro, que por sinal são dirigidos a ele.

_ Falta muito?

_ Não, estamos quase lá.

_ Já pensou num meio de entrar e sair sem sermos vistos? – questiona Ryan caminhando.

_ Não, como a idéia foi sua, achei que já tivesse um plano elaborado.

_ Você é o cara dos planos, se esqueceu?

_ É melhor descansarmos um pouco aqui e pensar numa maneira de fazer isso dar certo. – e senta-se numa pedra.

_ Certo, acho que vou procurar algo para comer enquanto você faz isso. Aquelas amoras já digeriram. – e já caminha por uma direção qualquer.

_ Ok. Folgado… – sussurra Dollenc.

Sem fazer a mínima idéia de onde ir, Ryan anda sem rumo pelo que parece ser uma floresta.

As diversas árvores cobrem o caminho, porém cada qual em seu espaço. Algumas já florescendo, outras buscando crescer junto ao sol.

O aroma liberado pelas mesmas perfuma o local e logo a sua frente, Ryan observa uma clareira.

Se aproximando, sente o sol ainda fraco bater em seu rosto e o canto das aves que sobrevoam o local invade seus ouvidos.

_ Vejamos, onde posso encontrar algo de comer aqui – diz a si próprio analisando a variedade de plantas.

Lembrando-se das aulas de biologia que tivera com a professora Simone, procura por árvores que tenham frutos já comidos pelos pássaros. Assim poderia ter certeza de que não escolheria algo que lhe pudesse fazer mal.

Vasculhando, encontra uma árvore meio que familiar. Seus frutos ligados a uma espécie de cipó e semelhantes à maça, lhe trazem recordações.

_ Axprias! – exclama ele ao identificá-las.

Agarrando um dos frutos, retira-o do cipó e dando uma mordida saboreia o gosto da fruta.

_ Sem duvida é muito bom – comenta mordendo novamente.

_ Vou levar algumas pro Dollenc. – e se estica para apanhá-las.

Uma, duas, três frutas são retiradas, contudo ao ir apanhar a quarta o jovem tem uma terrível surpresa.

Camuflada como um dos cipós, uma espécie de cobra, se apressa em lhe dar o bote e ao vê-la, Ryan cai no chão assustado.

Imóvel e calma, ela apenas o observa friamente. Enquanto o jovem sem saber como agir naquele momento, tenta ao máximo se afastar.

Aproximando-se cautelosa, a espessa caçadora mostra suas presas ao rapaz, que temeroso fecha os olhos a espera da morte.

Pronta para o ataque, ela investe em busca do seu alimento, porém é impedida por uma pedra que lhe acerta a cabeça.

_ Ryan, corre! – adverte Dollenc.

Sem pensar duas vezes o jovem obedece e se afasta aos tropeços do animal.

Porém a predadora não parece querer sair dali sem um lanche e investindo novamente mira o rapaz que corre.

_ Joga uma! – pede Dollenc olhando os frutos na mão do parceiro.

Não sabendo ao certo o porquê do pedido, ele lança uma das axprias para o mesmo, que corre em direção ao animal.

Enfiando-a na boca da adversária, ele a impede de obter sucesso em seu ataque.

Engasgada e com as presas bloqueadas pelo fruto, a cobra não vê alternativa senão deixa-los em paz.

Ryan suspira aliviado ao vê-la rastejar e sumir por entre os arbustos.

_ Você está bem? – pergunta Dollenc retomando o fôlego.

_ Aham… Obrigado.

_ Sabia que ia se meter em encrenca. – e ri da situação.

_ Para de rir! Eu quase morri agora!

_ Quase… Mas o Dollenc aqui, salvou o dia novamente.

_ Convencido… Eu ainda vou retribuir.

_ Sei, agora vamos. Cara precisava ver seu rosto de: Ai! Não me mate! – e o imita correndo.

_ Calado, eu fui pego de surpresa. – explica bravo.

Sem conseguir segurar mais o riso, Dollenc gargalha enquanto ambos retomam o caminho.

Voltando à pedra onde os mesmos estavam antes da confusão, eles discutem uma estratégia para adentrarem as minas em segurança.

_ Então ficamos combinados assim. – confirma Dollenc.

_ Certo, mas e se o plano falhar? – questiona Ryan.

_ Não vai falhar. Não se você fizer direitinho o que combinamos.

_ Mas precisamos de um plano B caso as coisas não dêem certo com o A. – argumenta o jovem cauteloso.

_ O plano B é… Vejamos… Correr feito louco.

_ Muito bem, senhor Inteligência.

_ Quer ficar aqui fora formando um alfabeto de planos ou quer conferir se o cara está lá dentro?

_ Tudo bem, que mau humor.

Levantando-se continuam em direção as minas e minutos depois já a avistam mesmo que de longe.

Guardas perambulam por entre as entradas e se já não bastassem os mesmo, há vários lobos amarrados em lugares estratégicos.

_ Olha, é uma fortaleza. – comenta Ryan observando os obstáculos à frente.

_ Lobos? Não tinham lobos quando eu vim aqui da ultima vez.

_ Não? Espera um pouco… Você já esteve aqui?

_ Sim. Há algum tempo.

_ E por que não me disse nada?

_ Você não perguntou, oras.

_ Mas e agora, nunca vamos passar por tudo aquilo.

_ Relaxa Ryan, sem desespero ok? Sei como podemos entrar facilmente.

_ Então me diga, como?

_ Tem um túnel escavado por entre esses arbustos e através dele podemos passar sem que nos percebam.

_ E onde está?

_ Bem… Faz um tempinho, mas tenho certeza que está em algum lugar por aqui. Só precisamos encontrar.

_ Só você mesmo pra não se lembrar de uma coisa tão importante.

_ Mas como você reclama, prefere passar pelos guardas e lobos ali na frente?

Ryan permanece em silêncio e apenas vasculha o local.

_ Você deve ter se enganado, não tem nenhuma passagem por… – mas antes que pudesse terminar a frase se vê dentro de um buraco.

_ Ah! Estava ai! Bom trabalho Ryan. – cumprimenta Dollenc.

_ Digamos que eu tenho um talento natural para cair em buracos. – responde ele se lembrando de como veio parar nesse lugar.

O túnel ainda que estreito, parecia firme e a medida que desciam tudo se tornava mais difícil de enxergar.

_ Tem certeza de que este buraco vai nos levar lá dentro? – pergunta Ryan parando no meio do caminho.

_ Hey, eu já menti pra você?

_ Durante essas 18 horas que passamos juntos… Não.

_ Não tem com que se preocupar, esse túnel termina num deposito antigo e sem utilidade.

_ Se você diz. – e começa a rastejar novamente.

Sem sequer verem o que está a um palmo de suas vistas, ambos prosseguem a descida, até que Ryan enxerga uma luz logo à frente.

_ Estou vendo algo – comenta ao parceiro.

_ O que está esperando? É melhor nunca mais desconfiar da minha palavra, amigo.

Adiantando-se, Ryan prossegue em direção a luz e empurrando algo que o impede de continuar, passa pela saída.

_ E então, eu não te disse para relaxar. Aqueles idiotas jamais nos descobrirão.

Porem não ouve nenhuma resposta do lado de fora.

_ Ryan, está me ouvindo? – fala Dollenc deixando finalmente o túnel.

Ao sair, percebe que o jovem está quieto ao seu lado e voltando-se para frente avista o que parece ser uma mesa repleta de comida e da mesma forma soldados.

_ Depósito antigo hein? – ironiza Ryan cutucando-o.

_ Eles não estavam aqui da ultima vez…- responde Dollenc surpreso.

Os guardas retiram suas espadas e se aproximam dos jovens, que sem qualquer forma de escapatória apenas levantam as mãos em sinal de rendição.

Continua…

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Publicado em 30 de abril de 2012, em História e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Tento em cada capitulo, colocar ao menos um pouco de ação, comédia, suspense…
    Enfim, vocês acham que desse modo a história fica menos pesada?

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