Capítulo 3: A história de um órfão…

_ Onde eu deixo este aqui?

_ Coloque-o separado dos demais. Disseram-me que ele é meio encrenqueiro.

Ryan sente que alguém o empurra e ao cair, percebe que barras de ferro o envolvem.

_ Aí ele não nos causara problemas.

As vozes desconhecidas se calam e o barulho dos passos diminui aos poucos, até não poderem ser mais ouvidos.

Sem saber onde se encontra e com uma forte dor na nuca, Ryan mais uma vez está perdido, no entanto, dessa vez não poderá contar com a sorte de ser encontrado por Bernard e Clara.

Seu coração apertado, se pergunta o que terá ocorrido a ambos. Será que também foram capturados? Será que ao menos estão vivos?

A prisão é fria, tanto quanto sólida e Ryan sem saída só pode esperar por um milagre que lhe tire de tão desconfortável situação.

Os passos são ouvidos novamente e trazem consigo um arrastar de pés, enquanto ele permanece em silêncio, temeroso com a volta dos soldados.

Junto deles vem um rapaz, na certa desacordado, como estivera instantes atrás.

_ Coloque-o com o outro que acabamos de trazer.

_ Tem certeza disso?

_ Bem, caso um deles morra, saberemos que o outro será de grande utilidade – e gargalha ironicamente.

Aberto o cadeado, Ryan pensa em sair correndo, porém, ao se dar conta de que não iria muito longe e que nessa tentativa poderia ser morto, resolve não arriscar.

Empurrado porta adentro, o desconhecido cai no chão ainda inconsciente.

_ Algum problema? – pergunta um deles franzindo a testa ao ver o olhar de Ryan.

Em silêncio continua a encara-los, enquanto o cadeado novamente é trancado.

_ Não gostou de seus aposentos senhor?  Esperamos que aproveite a estadia – debocha o outro.

Em meio aos risos ambos deixam o local.

Ryan certifica-se de que a cela está mesmo trancada e confirmando suspira angustiado.

Sua mente é a única que pode vagar para fora dali e sentado pensa em sua família, seus amigos e tudo mais que não voltará a ver.

Olhando para a mão enfaixada, se recorda dos desabafos feitos por Bernard, o qual juntamente com Clara, tão generosamente lhe acolhera.

Será que não há mais esperança para este lugar intitulado Casdia? E tudo o que lhe resta é apodrecer ali, sem que ao menos possa beijar o rosto de Helena sua mãe?

_ No que está pensando? – pergunta o desconhecido se levantando.

_ Se um dia vou sair daqui… – e suspira desmotivado.

_ Bem, sair você vai, mas não sei se vai gostar da próxima parada.

_ Pra onde vão nos levar?

_ Pra onde mais levariam, para as minas ou se for escolhido,  talvez o exército.

_ Hum…

_ Hey, você não se parece com um colono, nunca vi roupas tão estranhas.

_ Isso é… Bem, coisa de onde eu venho. – e abre um breve sorriso.

_ E da onde você vem? Talvez do norte?

_ Eu sou de Hopewell, Virg… Ah esquece, você não deve conhecer mesmo.

_ Mas como veio parar aqui?

_ Na verdade, eu não sei…

De cabeça baixa, apenas observa o chão imundo, mas, risos lhe chamam a atenção.

_ Qual é a graça? – pergunta Ryan, observando o jovem que ri incessantemente.

_ Não é nada… Nada mesmo. – e prossegue rindo.

_ Não vejo nenhum motivo pra você rir desse jeito – e da às costas ao estranho.

_ E por que eu não deveria rir? – pergunta retomando o fôlego.

_ Talvez pelo simples motivo de estar preso e não ter a mínima possibilidade de ser livre novamente?

_ E chorar ou ficar me queixando vai mudar essa situação? – questiona ele, tornando-se sério.

_ Não, mas rir não vai nos tirar daqui também. – responde Ryan sem paciência.

_ Nisso você pode estar certo. Bem, acho que vou sair agora. – e procura por algo nos bolsos.

_ Essa eu quero ver.

_ Achei. – e abre o sorriso ao pegar um pequeno arame.

Contorcendo o pequeno objeto, enfia-o no cadeado e após alguns cutucões e viradas, o mesmo se abre.

_ Soldados idiotas, nem revistam os prisioneiros antes de colocá-los nas celas. – comenta guardando novamente o arame.

Saindo porta a fora, olha para os lados, se certificando de que ninguém os observa.

_ Tá esperando o que? – e faz sinal para que Ryan o acompanhe.

_ Onde aprendeu a fazer isso? – e deixa a cela.

_ A vida me ensinou. Rápido, não temos tempo, por aqui.

_ Pra onde estamos indo?

_ Resgatar os outros.

Impressionado com a atitude do desconhecido, Ryan apenas o segue.

As paredes surradas, demonstram o estado do cativeiro. E somente algumas tochas presas às paredes iluminam o caminho.

_ Hey, como se chama? – sussurra o rapaz.

_ Ryan.

_ Ryan, eu me chamo Dollenc. Preciso de um favor.

_ O que quer que eu faça, Dollenc?

_ Preciso que vigie aqui e me avise se perceber qualquer movimentação. Pode fazer isso, Ryan? – e retira da parede uma das tochas.

_ Acho que sim.

_ Ótimo, vou entrar e você fica de olho nas passagens, certo? – e abre a porta.

_ Certo… Mas se vir alguém, como vou avisá-lo?

Contudo, Dollenc já havia adentrado a porta e sem resposta, Ryan se preocupa em vigiar o local para que não sejam descobertos.

Dollenc com a tocha, ilumina o que parece ser uma série de celas enferrujadas.

Alguns cochichos são ouvidos e ao observar novamente, percebe que há vários jovens presos e com medo.

_ Vocês estão bem? – pergunta ele, ao observar suas faces aflitas.

Nenhuma voz é ouvida em resposta à pergunta.

_ Tudo bem, eu vim tirá-los daqui – e coloca a tocha num dos ganchos da parede.– Não tenham medo, vamos sair logo, eu prometo.

_ E os soldados? – pergunta um garoto, ainda desconfiado.

_ Eles estão distraídos. Um rapaz que veio comigo está vigiando e irá avisar se eles voltarem.

Retirando do bolso a ferramenta de fuga, se apressa em abrir uma das celas.

_ Só mais um pouco e… Consegui! – diz Dollenc retirando o cadeado aberto.

Ao perceberem que suas palavras não são vagas, um verdadeiro tumulto se inicia, na pressa pela liberdade.

_ Pessoal calma, não façam barulho – e se dirige ao próximo cadeado.

_ Obrigada – agradece uma das jovens ao se ver livre.

Ao receber um abraço da bela cativa, Dollenc abre um sorriso e com as bochechas coradas, prossegue o trabalho, ainda que meio desajeitado.

Enquanto isso, Ryan vigia as passagens e ouvindo passos entra em desespero.

_ Droga! E agora o que eu faço? – sussurra a si próprio.

Os passos cada vez mais próximos, o pressionam a tomar qualquer atitude.

Primeiro, pensa em investir contra eles na esperança de atordoá-los, como fizera antes de ser capturado. Porém certamente o barulho atrairia mais soldados.

_ O que eu faço? O que eu faço? – e observa as sombras que já aparecem na passagem a sua frente.

Rapidamente adentra a porta  e fechando-a, percebe que todos os olhares se voltam em sua direção.

_ O que está fazendo aqui? Eu não lhe pedi que fica-se vigiando? – pergunta Dollenc ao vê-lo ali.

_ É que eles estão… – e faz sinais com a mão.

_ Estão o que? Desembucha! – e coloca o arame em mais um cadeado.

_ Eles estão vindo! – responde ele nervoso.

A confusão se arma e as varias vozes se tumultuam em desespero.

_ Pessoal calma, sem pânico – pede ele aos aflitos cativos.

_ O que vamos fazer? – pergunta uma das vozes.

_ Eu não quero morrer. – diz uma garota aos soluços.

_ Fiquem quietos. Deixem-me pensar por um instante.

_ Dollenc… Estamos sem tempo – alerta Ryan espiando pela fresta da porta.

_ Já sei, todo mundo em silêncio e apaguem a luz.

Instantes depois, a porta se abre e dois soldados surgem.

_ Que escuridão é essa? – pergunta um deles.

_ Vou pegar uma tocha.

Sozinho, o soldado anda desconfiado pela escuridão.

_ Hey, seus ratos! Por que estão tão quietos, digam alguma coisa – ordena o soldado.

_ Boa noite… – diz uma voz às suas costas.

Com uma tocha apagada, Dollenc desmaia o surpreso soldado e pega a chave da saída.

Pouco tempo depois, o outro, adentra o local com uma tocha em mãos.

_ Ouvi um barulho, tudo bem Paul?

O silêncio no local o faz suspeitar da situação.

_ Paul?

_ Boa noite… – repete a voz.

Num reflexo rápido, ele se vira e agarra a arma, antes que possa atingi-lo.

_ Boa noite – responde ele sorrindo.

Dollenc surpreso fica sem qualquer reação.

_ Então rapaz, o que houve com o Paul? Diga-me, antes que eu te deixe em pedaços.

Entretanto, um dos cadeados o atinge na cabeça e atordoado, nada pode fazer contra a segunda tentativa de Dollenc.

_ Bela jogada – cumprimenta ele ao ver Ryan se aproximando.

_ Que nada.

_ A essa altura já devem estar vindo, é melhor irmos logo.

_ Certo – concorda Ryan.

Novamente o som de passos invade os ouvidos, porém dessa vez em maior quantidade.

_ Dollenc, Rápido! – adverte Ryan.

Os vários cativos começam a perder a calma e Dollenc nervoso, tenta ao máximo abrir a ultima das celas.

A pressão imposta sobre Dollenc, o faz perder a calma e num estalo, o arame se quebra no interior do cadeado.

_ Essa não! – exclama ele.

_ Dollenc! – adverte novamente.

_ Escute Ryan, leve todos pra fora.  Vou terminar essa ultima cela e logo te alcanço. – e lhe entrega a chave da saída.

_ Tudo bem. Pessoal, venham comigo.

Um a um, eles percorrem a outra passagem e com a chave Ryan abre o portão, enquanto Dollenc tenta desesperadamente libertar a ultima refém.

_ Se ficar aqui, ambos morreremos. Deixe-me e salve sua vida. – pede a jovem desmotivada.

_ Não fale isso, ninguém morre comigo por perto. – e com toda a força puxa o cadeado.

Os soldados chegam e vendo a cena, retiram as espadas das bainhas.

_ Rápido! Vocês três, peguem os fugitivos, enquanto eu cuido deste aqui. – ordena o capitão.

Os três se vão e Dollenc desarmado observa a afiada lâmina.

_ Sabe o que eu faço com encrenqueiros como você, rapaz? – pergunta ele se aproximando.

_ Os liberta? – responde Dollenc ironicamente.

Ao olhar para o chão, percebe que a espada de um dos soldados abatidos ficara ali.

_ Não, eu lhe arranco os olhos, para que nunca mais me cause problemas.

_ É mesmo? – e pula ao chão.

Ao perceber as intenções do rapaz, o capitão sem hesitação disfere um golpe, entretanto, é bloqueado pelo mesmo que conseguira apanhar do chão a espada.

Ryan ao ver que até o ultimo dos prisioneiros se fora, resolve voltar e ajudar o corajoso companheiro. Mas no meio do caminho se depara com os três soldados.

_ Diga-me, onde estão os outros? – pergunta um deles.

Porém, Ryan apenas permanece imóvel a encara-los.

_ Então não vai cooperar, hein?  Pois bem, vai se arrepender de sua escolha. – e investe com a espada.

Ryan retira da parede uma tocha e com a mesma contra-ataca.

Vendo a guarda baixa do oponente, o derruba com uma pancada nas pernas.

O soldado como se fosse uma folha de papel, vira uma cambalhota e posteriormente aterrissa no chão imundo.

_ Ora seu… – brada um dos outros dois, ao ver o companheiro estirado.

Se sentindo mais confiante, Ryan ataca os outros dois.

Ambos investem furiosos contra o rapaz, contudo, Ryan de alguma forma inacreditável consegue se esquivar dos golpes.

Se sente um pouco mais rápido e sem duvida mais forte. A mão enfaixada lateja novamente.

Numa pancada, um deles é lançado à parede e a tocha se quebra ao meio com o impacto.

Já de mãos vazias, ele aplica um gancho no outro, o qual cai atordoado ao chão.

Assustado com a força do rapaz, o soldado corre ainda que meio descoordenado e logo desaparece pela passagem.

As espadas em conflito, tendem pra um lado e pro outro.

_ Tenho que admitir. Você tem fibra rapaz. – elogia o capitão.

_ Você também não é dos maus. – debocha Dollenc.

Os dois se encaram em meio à pressão da disputa.

_ Todavia, eu sou mais forte. – brada ele aplicando mais força.

Sentindo que está perdendo, Dollenc ajoelha ao chão e impondo tudo o que tem, tenta mudar a situação da batalha.

_ Desista rapaz, prometo faze-lo breve e indolor. – e sorri vitorioso.

_ Eu nunca… Desisto – responde o rapaz encarando-o.

Retirando a espada da disputa, Dollenc rola para o lado e com uma rasteira derruba o oponente.

Chutando a arma do inimigo, levanta e aponta a lamina no pescoço do capitão, que permanece imóvel ao chão.

_ O que está esperando? Vamos, me mate!

Dollenc vira a espada e com o cabo, desmaia o oponente.

_ Tudo bem? – pergunta Ryan.

_ Tudo sim.

_ É melhor irmos, um soldado fugiu e logo trará reforços.

_ Sim, mas ela ainda esta presa e eu não sei mais o que fazer.

_ Deixem-me. Não percebem que não tem jeito.

_ Eu não vou sem você. – diz Dollenc decidido.

Ryan se aproxima da cela e pegando o cadeado, puxa-o.

_ Eu já tentei, mas essa porcaria é muito forte.

Puxando novamente, o cadeado se quebra e a cela se abre para o espanto de Dollenc.

_ Obrigada – diz ela agradecida a ambos.

_ Depois do tanto de força que você fez, ele devia estar frouxo. – explica Ryan.

_ Mas… Deve ser. Vamos, rápido.

Deixando o cativeiro, os três se veem livres.

_ Agradeço mais uma vez, agora posso voltar pra minha família. – diz ela sorrindo.

_ Sabe o caminho? – pergunta Dollenc.

_ Sim, eu moro bem perto daqui, seguindo em frente. – e aponta a direção

_ Tome cuidado.

_ Pode deixar. – e o abraça.

_ Boa viagem. – fala Ryan a ela.

_ Obrigada, digo o mesmo.

Despedindo-se, ela corre sorrindo, enquanto ambos a fitam cada vez mais distante.

_ Bem e você Dollenc?

_ Eu o que?

_ Vai voltar pra sua família?

_ Não, eu… Não tenho família.

_ Nem pai? Nem mãe? Nem tios?

_ Nada. Bem, é hora de ir. – diz ele caminhando.

_ E pra onde vai?

_ Pra onde o vento me levar. – e olha o horizonte.

_ Cara, você é muito estranho. – comenta Ryan rindo.

_ Olha quem fala. Você nem sabe pra onde ir.

_ Bem, eu…

_ Hahaha, o sujo falando do mal lavado.

_ Sem graça.

_ Nossa, foi uma aventura e tanto.

_ É o que eu diga.

_ Bem, como eu já disse, é hora de ir. – e caminha pela estrada.

Ryan pelo contrario, permanece parado e em silêncio o observa caminhar.

_ Tá esperando o que? Anda logo! – diz Dollenc olhando pra trás.

Seu coração lhe diz que essa é a direção que deve seguir. E de que talvez, no fim dessa estrada, possa estar o caminho para casa…

Continua…

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Publicado em 19 de abril de 2012, em História e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. A aparição de Dollenc, o primeiro dos companheiros de Ryan nessa aventura…
    O que acham dele?

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