Capítulo 2: As colônias de Ariggon…


Os olhos se abrem e avistam um teto diferente do que estão acostumados, não há lâmpadas, mas sim, uma vela gasta pelo meio. Aos poucos recupera os sentidos e criando forças, levanta-se da cama.

Por onde olha, nada reconhece, nada é familiar.

A maioria dos objetos parecem velhos e feitos de madeira ou metal bruto. Será um sonho? Será que está dormindo em casa ou mesmo no hospital?

Ryan tem muitas perguntas sem resposta. E observando que à sua frente há um balde com água, o mesmo lava o rosto.

Ao fazer isso, percebe que há algo diferente em sua mão direita. O estranho anel permanece ali, dando prova de que talvez não seja um sonho, de que talvez não esteja dormindo.

_ Está melhor? – pergunta uma senhora lhe oferecendo um pano.

Sem saber o quê e como responder á pergunta, apenas sinaliza que sim com a cabeça.

As rugas tracejam o rosto da mulher e demonstram serem marcas de uma vida difícil.

_ Está com fome?

_ Não, obrigado…

Pegando o pano das mãos da mulher, enxuga o rosto, devolve-o e criando coragem, resolve fazer algumas perguntas.

_ Com licença, mas poderia me dizer onde estou?

_ Meu marido e eu te encontramos caído em frente à nossa casa e te trouxemos pra dentro.

_ E onde exatamente é aqui?

_ Uma das colônias de Ariggon.

_ Ariggon?

Num rangido a porta se abre e o marido adentra a casa. Sério, apenas coloca de lado o que parece ser o almoço do dia e com um lenço tirado do bolso, limpa a faca ensanguentada.

_ Já está de pé rapaz, dormiu bem? – pergunta ele sentando numa cadeira, com a faca ainda em mãos.

_ Sim… Sim senhor – responder Ryan temeroso.

_ Algum problema, você está meio apreensivo.

_ Problema? Não tenho nenhum senhor.

Os dois se entre olham e ficam imaginando o que estará se passando na cabeça do outro.

_ Querido, está assustando o garoto – interrompe-o, pondo assim, um fim ao silêncio.

_ E de onde você é? – diz ele pondo a faca limpa sobre a mesa.

Ryan se sentindo um pouco mais seguro começa a falar normalmente.

_ Sou de Hopewell, Virgínia, conhece?

_ Nunca ouvi falar, fica muito longe daqui?

_ No momento, eu não sei muito mais do que o senhor – explica Ryan.

_ Entendo e como veio parar aqui?

_ Também não tenho a mínima ideia…

_ Pelo menos sabe seu nome?

_ Sim, me chamo Ryan Aston.

_ Ryan, certo? Pra onde vai agora?

O rapaz permanece em silêncio, dando a certeza de que a mesma resposta das duas perguntas anteriores, sairia de seus lábios.

_ Não sabe como chegou aqui, muito menos como voltar. Meu jovem, você está mesmo com um problema.

_ Bem, só posso agradecer por me acolherem aqui. Obrigado por tudo e até um dia quem sabe. – diz ele se despedindo e caminhando até a porta.

Marido e mulher se olham, como se conversassem através dos mesmo e comovidos tomam uma decisão.

_ Não temos muito a oferecer e nossa casa é humilde, mas se quiser, pode ficar aqui até saber ao certo, que rumo tomar – diz a simpática senhora com um sorriso.

_ Mas eu não vou incomodar a rotina de vocês? – reluta Ryan.

_ Então está decidido, pode ficar o tempo que precisar, mas terá de me ajudar a cuidar das coisas por aqui. – confirma o senhor encerrando o assunto.

Sem saber como agradecer à generosidade do casal, Ryan apenas sorri, mas por dentro seu coração se aperta cada vez mais, tanto de receio por estar neste lugar onde nada conhece, quanto de saudades da sua casa e das pessoas com quem convivia.

———————–//———————

O sol já brilha e Ryan apenas observa da janela a paisagem tão diferente da que está acostumado a admirar do seu quarto. Sem sombra de duvida, a visão é bela e apesar de simples, seus ares transmitem uma sensação totalmente nova.

_ Por que não sai um pouco, talvez assim reconheça algo que te lembre de onde você veio. – sugere a mulher.

_ Tem razão, não vou achar nada ficando aqui parado.

_ Meu marido Bernard está cuidando das plantações, aproveite e conheça o local.

_ Tudo bem, até mais… – e deixa a modesta casa.

_ Tome cuidado!

A sensação que Ryan teve naquele instante, foi uma mistura de medo pelo que nunca virá antes, com a curiosidade de conhecer aquele estranho lugar e aos poucos esse mesmo medo perdia espaço e a cada andar a coragem crescia em seu peito. Nunca sentirá nada parecido antes.

A propriedade, ainda que pequena, tinha lá seus encantos. A folhagem macia na parte superior e áspera por baixo lhe tocava as mãos, que dedilhavam uma a uma as folhas da mesma.

Cachos de pequenas sementes se formavam desde as copas das árvores até o chão.

Os frutos se pareciam com a maçã, sua fruta predileta, porém, com pequenas pintas em preto e branco. E por fim, uma espécie de cipó preso da sua superfície até os galhos, tornando a planta ainda mais estranha.

_ Logo estarão maduras e prontas para serem colhidas. – comenta uma voz por de trás de Ryan.

_ Ah é o senhor, senhor Bernard… Qual o nome dessa fruta?

_ Se chama Axpria. Por quê? Não existem onde você mora?

_ Não, mas o que se faz com essas… Axprias?

_ Bem além de serem ótimas para se comer, quando cozidas, liberam um tipo de secreção que serve para aliviar a dor.

_ Tipo um analgésico?

_ Anegic… O que?

_ São uns comprimidos que minha mãe vive tomando.

Ryan percebe que suas explicações de nada esclarecem o confuso senhor, que apenas coça os cabelos grisalhos.

_ Deixa pra lá… É coisa de onde eu venho. – explica Ryan.

_ Ah, o lugar que você nem mesmo sabe onde fica.

_ Isso mesmo. Hey, já aguou estas aqui? – e aponta as curiosas plantas.

_ Eu vou fazer isso agora. – e mostra os baldes vazios.

_ Deixa que eu faça isso pro senhor. – e pega os baldes.

_ Obrigado meu jovem.

_ De nada… Bem, onde fica a torneira?

_ Torneira? O que é isso?

_ Torneira, de onde sai agua. Não tem?

_ Não que eu saiba.

_ E mangueira tem?

_ Mang… O que? – diz o velho coçando a cabeça outra vez.

_ De onde o senhor pega a água?

_ Do poço oras. – e aponta a velha estrutura no meio da plantação.

O velho poço feito de tijolos possuía uma corda presa a um balde, o qual se usava para retirar água.

Aos poucos, Ryan pegava o jeito e enchendo os baldes, molhava as plantas.

As horas se passavam como poucos minutos e Bernard admirado com a energia do rapaz, apenas o observava, indo e voltando com baldes e mais baldes d’água.

_ Tem certeza de que nunca tinha feito isso antes?

_ Nunca, o máximo que eu fazia era regar o jardim de casa com a mangueira.

_ Essa tal mangueira de novo… Mas o que vocês costumam cultivar lá.

_ Bem minha mãe já tentou fazer uma horta, mas como estava sempre ocupada, não deu muito certo. Preferimos comprar o que precisamos na quitanda mesmo.

_ Quitanda?

_ É uma espécie de mercado de frutas, verduras, etc.

_ Ah, uma feira?

_ Isso mesmo.

Papo ia, papo vinha e ao perceber, Ryan havia terminado tudo. Porém não se sentia cansado, pelo contrario, estava mais bem disposto do que nunca.

Suas mãos molhadas pareciam pegar fogo, especialmente, a qual se encontrava o anel.

O objeto brilhava mais do que o normal e Ryan sentindo como se fosse uma parte de si próprio, apenas o admirava.

_ O que está fazendo com isso! Tire-o agora mesmo! – exclama o homem, ao identifica-lo no dedo do jovem.

_ Hã? O que o senhor disse?

_ Você deve tira-lo agora mesmo. Se um soldado lhe pega usando isso… Vai estar em sérios apuros .

_ Mas por quê?

_ É terminantemente proibido o uso de quaisquer acessórios nas mãos.

_ É uma lei?

_ Sim, e quem não a cumpre passa o resto de seus dias na prisão. E essa é a menor das punições.

_ Só por um anel? Não acha isso injusto?

_ Somos uma colônia. Obedecemos às ordens vindas de Ariggon…

_Mas por que não se reúnem e lutam contra essa situação?

_ Como você acha que nos tornamos colônia? Nós lutamos, persistimos, mas no final, Ariggon derrubou toda e qualquer esperança deste e de muitos outros lugares.

Sua face antes alegre, agora muda em meio a tristeza e os olhos molhados retratam a dor e o sofrimento que estavam ocultos, até este momento.

_ Somos obrigados a pagar impostos absurdos, a viver com leis e mais leis sem cabimento… E por fim… Perder nossos maiores tesouros.

_ O que houve?

_ De tempos em tempos, os soldados de Ariggon passam pelos lugares escolhendo garotos e garotas da sua idade, para servir aos seus interesses.

Ryan permanece em silencio, apenas ouvindo o desabafo de Bernard e tentando imaginar sua dor.

_ Há cerca de 20 anos, vieram aqui e vendo meu filho, eles…

_ Seu filho? Eles o levarão?

_ Sim, por mais que minha esposa chora-se e eu implora-se, eles sem piedade o tirarão de nós.

_ Qual o nome dele?

_ Alliel… Tinha 15 anos – diz Bernard inconformado.

Ao voltar os olhos pra Ryan, um pequeno sorriso se forma.

_ Ele se parecia com você, no olhar principalmente… Mas eu tenho esperança de um dia revê-lo.

Comovido pela história, Ryan segura em seu ombro, na esperança de dividir a dor.

O Trotar de cavalos anuncia que alguém se aproxima e Bernard se adianta em ver os visitantes.

_ Não pode ser, mas já? – sussurra ele com o olhar aflito.

_ Quem é?

_ São eles. Ouça, vá e avise Clara minha esposa de que eles estão aqui e fique com ela.

_ Mas e você?

_ Eles só vieram buscar o imposto. Vá, eu ficarei bem. E retire esse anel! – alerta ele.

Atendendo ao que Bernard lhe pedira, sai em direção à casa.

O barulho dos cavalos aumenta e logo quatro soldados adentram a plantação.

Suas faces cobertas pelos capacetes, não permitem que o velho veja suas feições.

_ Olá, no que posso servi-los? – pergunta Bernard.

_ Não se faça de tolo velho, sabe muito bem o que viemos fazer aqui – responde sem paciência um dos quatro.

Sem saber como explicar a situação aos soldados, Bernard apenas permanece de cabeça baixa.

_ Deixe de enrolação e pague seu tributo colono!

_ Não posso… – sussurra aflito o proprietário.

_ Como? Não entendi muito bem – zomba ele aos companheiros.

As risadas são um sinal de que os corações dos cobradores ,não guardam um pingo sequer de piedade.

_ Não tenho como pagar – repete ele ainda em baixo tom.

_ Ouviram isso? Ele não tem como pagar.

_ As frutas não estão prontas para serem colhidas, por isso ainda não tenho o dinheiro – explica ele arrancando uma fruta e lhe entregando.

O impiedoso soldado, ao pegar o fruto das mãos do amedrontado senhor, o arremessa ao chão e posteriormente, esmaga-o com o pé.

_ Vocês devem entender que se adiantaram dessa vez e assim não tive… – mas é interrompido.

_ Basta! Além de não cumprir seu dever com Ariggon, ainda insinua que a culpa é nossa? – questiona furioso, retirando a espada da bainha.

_ Não quis ofende-los, peço perdão – reluta Bernard temeroso.

Enquanto isso, Ryan ao chegar à casa, explica tudo a Clara esposa de Bernard.

_ Ainda não colhemos nada, como podem querer que paguemos tributo?

_ O que acontece se não pagarem esse tal tributo? – pergunta Ryan, já cogitando as piores hipóteses.

Ela preocupada, apenas permanece pensativa, enquanto Ryan a observa.

_ Senhora Clara, o que acontece?

_ Só podemos esperar que Bernard os convença a voltar outro dia.

Ryan se lembrando do que o mesmo lhe dissera mais cedo, tenta retirar o anel do dedo, entretanto, sem sucesso.

_ Hã? Por que não quer sair! – e puxa com força o artefato.

De nada adiantava as tentativas, de alguma forma o anel se colara ao seu dedo e por mais que puxa-se, continuava ali.

_ Senhora Clara, tem algo pegando fogo!

_ Oh meu Deus! Bernard! – grita ela em desespero.

_ Fique aqui! Eu vou até lá – e acalma a aflita mulher.

Ao ver o pano sobre a mesa, o pega e amarra-o na mão onde se localiza o anel.

Saindo em dispara, corre por entre as plantações, guiando-se apenas pela fumaça que invade os céus.

_ Senhor Bernard! – exclama ao vê-lo caído.

A fumaça densa dificulta a respiração de ambos e Bernard tosse incessantemente.

_ Venha, tenho que te tirar desse lugar – e puxa o asfixiado senhor.

_ Onde está Clara? – pergunta ele, se sentindo um pouco melhor.

_ Deixei-a em casa, não se preocupe. – responde Ryan.

O trotar dos cavalos parecem vir de diversas direções e aumentam cada vez mais.

_ Rápido, fuja! Eles vão queimar tudo aqui!

As tochas acesas circulam pela plantação, que aos poucos se consomem em meio as chamas.

_ Todo o meu trabalho… Malditos… – e observa inconformado à cena.

_ Hey velhote, de quem é a culpa agora? – zomba um dos soldados ao encontrá-los.

Ryan o fita com ódio, enquanto pensa numa maneira de tirar Bernard dali.

_ Não sabia que tinha um filho. Bem, já conhece a lei. Você virá comigo rapaz – e desce do cavalo.

_ Fuja garoto! – suplica Bernard.

_ Nem pense nisso ou vai se arrepender – ameaça o soldado.

As vozes de ambos se perdem antes de chegarem aos ouvidos de Ryan, que decidido corre em direção ao soldado.

_ Isso mesmo, é assim que eu gosto – diz ele tirando a espada.

_ Não! Pare Ryan! – exclama Bernard, já prevendo o fim trágico.

Ryan cego pela fúria, investe com toda a força de seu corpo e sem sentir ao menos o vento bater em seu rosto, ataca o soldado de mãos vazias.

A armadura antes em bom estado, agora range amassada, enquanto o soldado cai inconsciente ao chão e Ryan voltando a si, percebe o que acabara de fazer.

Suas mãos não se machucaram e não há dor em seus braços. A ardência parece ter voltado a mão direita e ainda sem acreditar no que fizera, retoma o fôlego.

_ Como… Você… – diz Bernard sem acreditar no que acabara de ver.

_ Eu não sei… Eu só… – mas algo lhe atinge a nuca, o levando a desmaiar ao solo .

O que parece ser o líder dos quatro, guarda sua espada e voltando-se para ao outro o acorda.

_ Levanta! – e o chuta.

_ O que houve?

_ O garoto ali te derrubou – e ri incessantemente.

Os outros dois se aproximam, descem dos cavalos e observam à cena.

_ Maldito! Vai pagar com a vida pelo que me fez! – e pega a espada do chão.

Pondo-a sobre o pescoço de Ryan, se prepara para dar o golpe fatal.

_ Espere… – interrompe o líder.

_ O que foi? – resmunga impaciente.

_ Pode-se ver que o rapaz é bem forte, seria um desperdício matá-lo. Vamos levá-lo para trabalhar nas minas.

_ Mas… Mas… Tudo bem – concorda, ainda que um pouco contrariado.

_ Deixem-no em paz! – exclama Bernard.

_ Silêncio! Pela coragem do jovem vamos perdoar sua ofensa colono. Agora vá trabalhar!

Bernard tira a faca e receoso, apenas permanece observando.

_ Não faça eu me arrepender de poupar sua inútil vida. – ameaça o impiedoso líder.

Incapaz de fazer nada para salvá-lo, Bernard os vê levarem Ryan para longe, assim como a seu filho Alliel tempos atrás…

Continua…

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Publicado em 4 de abril de 2012, em História e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Falando bem a verdade, a história tem inicio nesse capitulo…
    Podem perceber que o primeiro é o mais curto de todos
    🙂

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