Capítulo 1: Um lugar chamado Casdia

O sol da manhã irradia os céus, enquanto gotas de orvalho escorregam pelas folhas da vegetação e ao se desprenderem liberam frescor ao ar.

Os pássaros cantam alegremente, anunciando o nascer de um novo dia e com os olhos fechados Ryan apenas deixa seus pensamentos vagarem sem rumo pelo silêncio no quarto.

_Ryan! – Exclama sua mãe da cozinha.

Sem dar a mera importância ao chamado, mantêm seu olhar fixo ao teto e sua mente continua por ai, bem longe. Ora pensando em seu pai que não vê a meses e ora imaginando o que virá agora que já possui seus 16 anos.

_Ryan! – Persiste a voz.

Finalmente resolve levantar, vai até o banheiro, escova os dentes e molha o rosto.  Ao olhar para o espelho se sente estranho. Não fisicamente, mas sim em seu interior.

Será o sono que ainda persiste em ficar? Será a ansiedade de uma nova fase? Ou talvez as novas responsabilidades que certamente viram?

Deixando as perguntas de lado, troca de roupa e desce até a cozinha.

_ Enfim desceu, já estava começando a achar que ficaria por lá – diz sua mãe colocando o prato em sua frente com algumas torradas.

_ Bom dia, é que eu estava terminando um trabalho de história.

_ Em pleno sábado? Muito bem, quem é você e o que fez com meu filho? – Brinca ela lhe dando um beijo.- _ Feliz Aniversário!

_ Valeu. E o pai já ligou?

_ Ainda não, mas você sabe como ele é, sempre deixando tudo pra ultima hora.

Ryan apenas observa a janela enquanto morde uma das torradas com geleia e voltando-se para a mãe, percebe que a mesma o fita em silêncio.

_ O que foi? – Pergunta curioso.

_ Não é nada, só estou admirando o meu filho. Um filho lindo e muito prestativo, que vai fazer as tarefas que estão aqui. – e lhe entrega uma folha.

_ Tudo isso?

_ Tenho certeza de que pode dar conta, afinal, já é um homem. – e pega a bolsa.

_ Aonde vai?

_ Ao hospital, vou ter de trabalhar no período diurno essa semana, Michael pegou conjuntivite.

_ Entendi… E quando volta?

_ No fim da tarde, mas acho que até lá sua surpresa já devera ter chegado.

_ Opa, que surpresa? – e já demonstra ansiedade.

_ Eu e minha grande boca! Bem tenho que ir…

_ Pode ir parando ai mesmo dona Helena Aston.

_ Quantas vezes vou ter de repetir pra não me chamar desse modo, hein garoto? Vejamos… Só posso lhe dizer que é algo ou “alguém”, que você queria muito que estivesse aqui.

Ryan abre um sorriso, ao cogitar a possibilidade de que seja seu pai, o qual finalmente virá vê-lo.

_ Nossa olha a hora! Preciso ir, te amo filho. – e o beija.

Porém ele continua ali, apenas imaginando se sua hipótese está correta ou não, enquanto sua mãe entra no carro e sai em disparada.

Por alguns instantes permanece desse modo, até perceber que há muito trabalho a ser feito. Adianta-se para terminar o café da manha, coloca o prato na pia e começa as tarefas.

Com o cortador de grama se empenha em terminar a primeira das tarefas, enquanto o sol ainda fraco bate em seus olhos castanhos claros.

O mover do aparelho libera aos poucos pedaços da folhagem, que se dispersa com as brisas que vem e vão a todo o instante pelo jardim.

_ Bom dia, Ryan!- cumprimenta uma voz já familiar.

_ Oi Sarah – e desliga o cortador.

Desde os 7 anos Sarah e Ryan são melhores amigos, juntamente com Toddy que se mudara para cá em Hopewell, há cerca de 2 anos.

_ Pegando no pesado logo cedo?

_ É, a dona Helena conseguiu se superar dessa vez.

_ E por falar na sua mãe, onde ela está?

_ Foi para o trabalho no hospital, parece que o outro médico pegou conjuntivite.

_ O bonitão do doutor Michael? Ai que maldade – e da um estranho suspiro.

_Eu hein, o que ele tem demais?

_ Só pode estar brincando né? Além de ser inteligente, elegante, ainda é o maior gato! Se eu fosse a Helena, já teria cravado as garras nele.

_ Hum… Mas o que você queria com ela?

_ Ah é! Minha mãe me pediu pra que trouxesse o produto que a Helena encomendou. – e retira da bicicleta o pacote.

_ Tudo bem, eu entrego quando ela voltar. – diz Ryan pegando-o.

_ Ah! Mais uma coisa, esse aqui é pra você.

_ Pra mim? Mas eu não encomendei nada.

_ Não seu bobo, esse é o meu presente de aniversário.

_ Que isso Sarah, não precisava me dar nada poxa – e agradece com um abraço à amiga.

_ Espero que goste…

Ryan abre o pequeno pacote e retira de lá um pingente.

_ Abra-o – alerta a amiga.

O pingente em formato de guitarra traz em seu interior uma foto dos três amigos, tirada num piquenique há cerca de 6 meses.

_ Maneiro, gostei muito Sarah – diz ele com um sorriso.

_ Pelo menos vai ter algo pra por nessa corrente que você nunca tira do pescoço. Agora tenho que ir.

_ Certo, até mais então.

Sarah volta a bicicleta e despedindo-se pedala rua afora.

Ryan já trata de colocar de uma vez o presente, pois do jeito que é distraído, com certeza o perderia na primeira oportunidade.

O dia passa e o sol se esconde atrás das nuvens escuras e pesadas.

_ Parece que essa chuva vai ser forte – comenta Helena fechando a janela da cozinha.

Ryan debruçado sobre a mesa que com tanto gosto preparou, apenas observa o terceiro prato a sua frente. Enquanto Helena ao perceber o olhar de decepção do filho, resolve tentar animá-lo.

_ Nossa! O que temos aqui! – e retira algo da sacola.

Ryan não demonstra sequer um pingo de interesse e apenas continua debruçado.

_ Será? Mas não pode ser! Um bolo de brigadeiro coberto de raspas de chocolate e com recheio de… Adivinha, doce de leite! Hummmm… – e exibe a sobremesa na frente de Ryan.

_ Não quero, obrigado… – e vira para o lado.

_ O que? Mas é sua sobremesa favorita.

Ao se dar conta de que nenhum tipo de bolo poderia suprir a necessidade que seu filho tinha naquele momento, resolve se sentar e assim consolá-lo.

_ Olha não se preocupe, ele vai chegar. Só está um pouco atrasado.

_ Pra que continuar se enganando mãe, se a gente sabe que ele não vem! – e joga os talheres no chão.

_ Epa, epa. Escute aqui rapaz, eu sei que você está nervoso, mas isso não lhe da o direito de se zangar comigo também, ouviu?

_ Me desculpa… É que eu tinha esperança que dessa vez ele viria.

_ E ele virá Ryan. Agora pegue esses talheres do chão e vá tomar um banho, enquanto eu termino o jantar.

Sem dizer mais uma palavra sequer, apanha os objetos, coloca-os novamente sobre a mesa e sobe as escadas.

Helena olha o frango que assa no forno e prova o espaguete, para testar o sal.

O banho parece esfriar a cabeça de Ryan, que pondo os pensamentos no lugar, procura uma roupa adequada.

Após estar pronto fecha a janela do quarto, para impedir a entrada da chuva que se torna mais forte a cada instante.

O telefone toca e Helena se adianta em atendê-lo.

_ Alo? Boa noite Rick, posso saber onde você está? – e tenta se manter calma.

_ Boa noite Helena, eu estou aqui na Florida.

_ Como assim na Florida, por acaso se esqueceu de que dia é hoje?

_ Claro que não.

_ Então por que não está aqui ainda, hein?

_ Bem, é que eu tenho uma tese pra entregar na segunda de manhã e… – mas Helena o interrompe.

_ Tese? Então você não vai dar as caras porque tem uma porcaria de tese pra fazer? – exclama ela, perdendo de vez a paciência.

_ É o meu trabalho, achei que pelo menos você entenderia a minha situação…

_ Rick, eu não tenho que entender nada, guarde suas desculpas pro seu filho.

_ Nosso filho, esqueceu? E é por isso que preciso que converse com ele e explique a situação.

_ Eu? Já estou cansada de ficar acobertando suas mancadas. Poxa, é o aniversário dele Rick… – e respira fundo para aliviar um pouco do estresse.

_ Olha, me escute, eu entrego a tese na segunda e na terça estarei ai.

Helena fica em silêncio, pensa por alguns instantes e por fim toma a decisão.

_ Terça? – pergunta ela concordando.

_ Sim, eu prometo que na terça logo pela manhã, estarei ai e levarei meu presente.

_ Suas promessas nunca valeram muito Rick. – desabafa ela, ao olhar para a aliança que ainda guarda em seu dedo.

_ Agora tenho que desligar. Diga pra ele que eu desejo um feliz aniversário e sinto… – mas Helena já sabendo o final da frase, encerra a ligação.

Mais uma vez respira fundo, pensa na desculpa da vez e vira. Porém, ao fazer isso, se depara com o olhar de decepção e ao mesmo tempo ira do filho.

_ Oi querido, nem ouvi você chegando… Precisamos conversar. – e puxa uma cadeira.

No entanto, Ryan cego pela forte emoção, corre para fora em meio a tempestade.

Helena o chama varias e varias vezes, mas seu filho não esta mais lá.

A chuva forte e densa diminui ainda mais a visão de Ryan, que corre sem rumo pelas ruas.

Depois de pegar a chave do carro, Helena sai em busca do filho amado.

O vento sopra, as arvores chacoalham em meio à tormenta e os raios rasgam o céu, anunciando a vinda dos trovões.

Ryan confuso, apenas procura um refugio da chuva, para por os pensamentos em ordem.

O telefone chama, todavia, sem resposta. Helena dirige desesperada, sem saber ou ver o que está a um palmo de sua frente. Seu coração de mãe avisa que o pior pode acontecer.

_ Vamos, atende! Atende Ryan! – diz ela ligando novamente.

Vendo que o esforço é inútil, decidi ligar para a polícia e explicar o ocorrido.

O rapaz desorientado e exausto pela corrida, se refugia em uma construção. As claridades dos raios iluminam parcialmente o local, enquanto ele anda por entre as estruturas.

A fúria, a tristeza e o frio se misturam, anestesiando toda e qualquer percepção.

Num passo em falso, sente seus pés perderem a firmeza e seu corpo aterrissar em meio a lama.

Ao olhar para cima, percebe que o céu está mais distante e o chão menos estável.

Finalmente se toca de que caiu em um dos buracos da obra. O celular molhado já não tem utilidade.

_ Funciona! Anda! – e tenta incessantemente ligá-lo.

A lama que cobre suas mãos, facilita que o aparelho escorregue por entre seus dedos e vá para o fundo do buraco.

_ Essa não, mas que droga! – e vasculha o lugar.

Ryan fica cada vez mais desesperado, enquanto as águas da chuva escoam para dentro da vala, juntamente com a terra da construção.

_ Socorro! Alguém! – suplica amedrontado.

Sente ter agarrado algo do fundo da lama. Será seu celular? Ao levantar as mãos, percebe que segura uma caixa.

Sem alternativa a não ser abri-la, apenas torce para que seja algo que lhe ajude a escapar de tal enrascada.

De dentro da mesma, retira um pequeno artefato com um brilho diferente e um formato circular.

_ Um anel? No que uma porcaria de anel pode me ajudar! – brada Ryan.

Contudo, ao voltar-se novamente para o misterioso artefato, percebe que seu brilho é diferente, nada parecido com o ouro ou a prata.

_ Por favor, me ajuda… – suplica ao objeto.

Num impulso se vê pondo o anel, sem saber ao certo o porquê, mas algo no fundo de seu inconsciente dizia que aquela era sua única chance de não morrer ali.

Poderia jurar que em alguns instantes ouvira a voz de sua mãe lhe chamando para levantar como sempre.

O barulho da chuva dá lugar ao silêncio do desconhecido. Ryan sente suas costas no chão e suas mãos tocarem as folhagens.

_ De onde ele veio? – pergunta assustada, uma voz doce.

_Você está bem meu jovem? – diz outra, só que mais grossa.

Sem conseguir ao menos distinguir os vultos que lhe falam, Ryan apenas faz uma pergunta.

_ Onde estou?

_ Ora, onde mais estaria… Está em Casdia meu jovem – responde a voz grossa, certamente de um senhor.

Sem falar, sentir ou ver mais nada, Ryan perde a consciência…

Continua…

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Publicado em 23 de março de 2012, em História e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Na maioria das vezes, o primeiro capitulo e o mais calmo de todos…
    Tentei deixa-lo o mais interessante possível.
    O que acharam dele?

  2. Muito interessante e principalmente cativante quero saber o fim bjos………..

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